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Relatório aponta problemas em quase 30% das estações meteorológicas do Inmet no RS

  • Data: 02/Abr/2025

Entre as falhas estão lacunas no registro de temperaturas e precipitação. Especialistas alertam que vácuos informacionais podem comprometer análises e previsões climáticas

Lacunas no registro de temperaturas e estações fora de operação foram algumas das questões identificadas pelo vice-reitor da Unisinos, Artur Eugênio Jacobus, ao analisar dados coletados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Rio Grande do Sul. Os problemas apontados foram compilados em um relatório, enviado para o instituto e para Zero Hora. O levantamento aponta que há falhas em 16 dos 55 dos equipamentos (29,09%) convencionais e automáticos da rede do Inmet no RS. O instituto diz que as inconsistências estão "dentro dos limites de tolerância da rede" do RS. 

— Eu notei falta de dados na estação do Jardim Botânico, em Porto Alegre. Aí, eu comecei a olhar outras estações, fui puxar um fio e veio um novelo inteiro de problemas. São estações que funcionam de dia, mas não funcionam de noite, tem algumas que estão sem funcionar. Essa carência de dados pode criar uma espécie de deserto de informação, limitando a capacidade de previsão do tempo — afirmou o professor, que, apesar de lecionar nas áreas de linguística e gestão, já atuou em um serviço de meteorologia e possui uma estação particular há 15 anos.

Referência oficial para parâmetros do clima no Brasil e no Exterior, o Inmet, ligado ao Ministério da Agricultura, Agropecuária e Abastecimento, possui no RS 55 estações meteorológicas, sendo 44 automáticas e 11 convencionais – com leituira dos dados feitas pessoalmente por um observador. Deste total, pelo menos 10 apresentaram inconsistências na análise realizada por Jacobus.

Como prever o futuro com um passado incompleto

Parte dessas falhas também foi identificada por Julio Marques, professor de climatologia da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), durante pesquisas acadêmicas. Segundo o professor, essas lacunas acabam prejudicando as pesquisas climáticas e a previsão de eventos futuros, deixando a comunidade mais exposta e despreparada para o que pode ocorrer.

— Com falhas, mau funcionamento ou inoperância das estações, a série de dados fica quebrada. A gente tem que rodar os modelos climáticos (que permitem a projeção e previsão climática) só com um pedaço do dado, alguns até descartar. Se continuar tendo problemas nas estações, a gente não vai conseguir ver no futuro, por exemplo, se houve aquecimento em uma região ou não. Grande parte do trabalho climatológico e meteorológico é comparativo, depende de dados confiáveis anteriores. Como a gente vai fazer afirmações ou projetar o futuro com um passado incompleto? — pondera o professor.

Marius Burcea / stock.adobe.com

As estações meteorológicas convencionais são as mais antigas instaladas no Brasil.Marius Burcea / stock.adobe.com

Estações contam a história ambiental de localidade por décadas

Murilo Lopes, meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que as estações têm décadas de funcionamento. Algumas possuem até um século de registros de evoluções climáticas das localidades em que estão instaladas. Por isso, elas são essenciais para contar a história ambiental de alguma área, o que inclui pontuar anomalias, períodos de chuvas extremas, episódios de calor ou frio extremos, entre outros. Por isso, quando elas são trocadas de local ou desativadas, a história climática é perdida e interrompida.

Quando se trata de medições de chuva o assunto é ainda mais complexo, analisa Marques. Isso porque uma onda de calor ou frio normalmente abrange uma grande extensão territorial. Então, quando uma estação falha, ainda é possível fazer uma "média" observando cidades lindeiras. Já as precipitações costumam ocorrer em áreas menores, como em apenas uma cidade, por exemplo. Dessa forma, não há nem a possibilidade de tentar compensar a falta de informação realizando uma média do que ocorreu na região em que o lugar está situado.

Manter a qualidade é difícil

Os dois especialistas compreendem que manter o funcionamento ideal das estações meteorológicas convencionais ou automáticas é complexo, uma vez que depende de investimento em pessoal e infraestrutura

— Atualmente o Instituto Nacional de Meteorologia faz parte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, então seria interessante que houvesse um aporte de recursos maior e que essa rede (de estações) fosse ampliada. A precariedade de orçamento acaba limitando as equipes que fazem a manutenção dos sensores das estações automáticas. A falta de pessoal também dificulta a realização das medições convencionais — conclui pontua Lopes.

O que diz o Inmet

Em resposta à reportagem, o Inmet diz que existem nove estações automáticas próximas àquelas citadas com falhas no relatório do professor da Unisinos, "suprindo a cobertura padrão de monitoramento das variáveis meteorológicas em todas essas localidades". 

Sobre as três estações automáticas em pane no RS, o Inmet informou que "tal fato está dentro dos limites de tolerância da rede" e que o número "representa menos de 8% do total de 44 estações meteorológicas automáticas" no Estado.

Conforme o órgão, "parcerias com outras instituições federais e estaduais provedoras de dados meteorológicos e hidrológicos têm contribuído com uma maior eficiência no processo de assimilação de dados dos modelos numéricos de tempo e clima", dessa forma, "falhas ou paralisações pontuais – situações obviamente possíveis em qualquer infraestrutura de rede com instrumentos instalados em campo – não comprometem o conjunto total de dados para essa e outras aplicações".

Sobre Torres, o instituto informou que a estação foi fechada em 10 de outubro de 2024 após ser vandalizada. "Outra estação será instalada em breve em uma nova localização no mesmo município, como parte das ações de reestruturação de toda a rede de monitoramento do RS operada pelo INMET".

A nota ainda elenca ações de fortalecimento do INMET e da meteorologia no Brasil. Veja:

"Para 2025 está previsto um aumento de 46% do orçamento (PLOA 2025), destinado à produção e divulgação de informações meteorológicas e climatológicas.

As ações de recuperação e intensificação do monitoramento meteorológico específicas para o RS estão em andamento graças aos recursos decorrentes de um Crédito Extraordinário aberto por MP em 2024, recentemente convertida na Lei Nº 15.105/2025, com aplicação específica para a recuperação da rede meteorológica do INMET no Estado RS, cujo processo licitatório foi concluído ainda em 2024.

Atualmente, o fornecedor vencedor do certame está realizando as atividades preliminares (elaboração de projetos executivos, importação de sensores e fabricação de partes e peças) para início de instalação de 98 estações automáticas a partir do 2 trimestre de 2025.

Visando recuperar a capacidade de entregas do INMET, o MAPA incluiu no CNU o pleito de 80 vagas da carreira de C&T para repor a redução no seu quadro de pessoal ocorrida em anos anteriores, sendo atendido com a previsão de ingresso de 40 tecnologistas Meteorologistas, 20 analistas de TI e 18 analistas área meio e 2 analistas de Eng. Elétrica /Eletrônica, cujo resultado foi homologado em 28.02.2025 e publicado no dia 05.03.2025.

No mesmo sentido ampliar a atuação do INMET no território nacional, a Portaria MAPA nº 735/2024, criou 27 unidades de apoio meteorológicos em todas as unidades federativas dentro das estruturas das SFA (Superintendências Federais de Agricultura e Pecuária), em substituição os antigos distritos meteorológicos, que eram apenas 6 em 2024, atendendo ao objetivo central do novo Planejamento Estratégico do INMET (Portaria MAPA nº 738/2024) que é reestruturar para fortalecer.

As equipes das novas unidades de apoio meteorológico estão sendo formadas e possuem as seguintes competências e responsabilidades:

I - Operar e manter a rede de observações meteorológicas na respectiva UF;

II - Coletar e qualificar dados meteorológicos, supervisionando os trabalhos de transmissão e registro de dados meteorológicos nos sistemas centralizados específicos;

III - Apoiar a divulgação e a comunicação dos produtos de previsão do tempo e do clima, avisos e boletins meteorológicos especiais do Instituto Nacional de Meteorologia na respectiva UF; e

IV - Exercer outras atividades que lhe forem atribuídas.

Todas essas ações em curso e futuras visam pôr em prática as diretrizes e objetivos do Planejamento Estratégico 2025-2031 do INMET, https://portal.inmet.gov.br/planejamento, refletindo o seu compromisso em atuar de forma proativa e inovadora na mitigação de riscos meteorológicos.

Em suma, com foco na produção e disseminação de informações confiáveis e tempestivas, o INMET orienta suas ações para contribuir com a segurança da sociedade e o desenvolvimento sustentável, especialmente no setor agropecuário, atuando como referência nacional e internacional, pautando valores como ética, excelência técnica e cooperação, fortalecendo, assim, o seu papel no cenário meteorológico global."

Zero Hora também questionou quais seriam os parâmetros para definir a tolerância de estações automáticas e convencionais sem funcionamento por Estado. O Inmet respondeu que: 

"Temos a informar que o limite de tolerância de uma rede de coleta de dados meteorológicos à falhas é função de várias variáveis, ou seja, o 'número de estações em falha' a ser admitido como dentro do normal varia conforme o tipo da falha e também com a configuração da cobertura e do número de estações existentes numa determinada rede (UF).

Falhas nas estações convencionais e automáticas podem acontecer em apenas um sensor ou instrumento, afetando apenas uma variável meteorológica ou afetar todas as variáveis de uma dada estação.

De forma análoga, o limite de tolerância da rede de coleta de dados, avaliada pelo 'número de estações em falha' irá variar também com o número de estações existentes naquela rede, bem como, com a configuração e cobertura propiciada pelas várias redes de estações meteorológicas existentes naquela UF e em UF adjacentes.

No Plano Estratégico do INMET, para 2025-2031, o Objetivo Estratégico OE-3 aponta o compromisso de manter índice de estações meteorológicas operantes > 85%, para a rede própria do INMET em todas as UF (https://portal.inmet.gov.br/planejamento).

Não obstante o acima exposto, o INMET busca com suas equipes próprias nas várias UF e com auxílio das equipes de parceiros, reparar as eventuais falhas no menor tempo possível, considerando tanto eventuais limitações de recursos humanos, como as potencialidades de uma rede nacional com mais de 7,9 mil estações meteorológicas cadastradas e ativas."

Estação automática x estação convencional

Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) / Divulgação

As estações meteorológicas automáticas funcionam sem intervenção humana.Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) / Divulgação

As estações meteorológicas podem ser classificadas em dois tipos: as convencionais e as automáticas. As principais diferenças entre elas são a periodicidade e o modo de coleta de informações.

Os dados de uma estação meteorológica automática são recolhidos por meio de instrumentos e sensores automatizados, sem necessidade de intervenção humana. Os equipamentos registam as informações de modo contínuo. De hora em hora, esses dados são integralizados e disponibilizados para a sede do Inmet, em Brasília, via satélite ou telefonia celular.

No caso das convencionais, a estação é composta por equipamentos analógicos, como termômetros, ou sistemas mecânicos de monitoramento. Nessas circunstâncias, existe a presença diária de uma pessoa treinada, conhecida como observador, que faz uma leitura manual dos dados em três horários fixos do dia, às 9h, às 15h e às 21h.

Fonte: GZH

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

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