“Vem a chuva e leva tudo”: produtores relatam desafios na safra de inverno do RS
Aguaceiro na largada da estação causou erosão em algumas áreas e levou agricultores a replantarem ou atrasarem plantios, principalmente do trigo
Vivendo de extremos, a agricultura do Rio Grande do Sul é posta mais uma vez à prova, agora com o excesso de chuva durante o inverno. A umidade em níveis acima do esperado prejudica o desenvolvimento das plantas da estação, especialmente o trigo, com danos que chegam a atingir lavouras quase inteiras em algumas regiões.
Fabiel Belini, 32 anos, que se dedica à cultura em Santa Bárbara do Sul, tradicional região produtora no norte do Estado, diz que precisou replantar áreas onde a força da água causou erosão. As perdas logo na largada do ciclo não comprometem o desenrolar do restante da safra, que ainda pode render boa produção, diz o agricultor. Mas pesam nos custos e no investimento que é feito para implementar a lavoura:
— O maior problema é o adubo que vai embora, o solo que vai embora... Vem uma chuva e leva tudo. E, pior, ainda leva para dentro dos rios — lamenta.
Na região de Não-Me-Toque, também no Norte, a decisão de atrasar o plantio tem se mostrado a melhor escolha na propriedade de Giordano Schiochet, 33. Ainda que a medida prolongue o cronograma inicialmente previsto, o atraso não deve impactar a safra que vem na sequência, de soja, para ser colhida no verão.
Conforme Schiochet, os problemas com a chuva volumosa no início do ciclo só não se transformaram em prejuízos maiores porque a área dedica ao cereal é pequena (cerca de 25% do total da propriedade) e porque os cuidados com a cobertura que antecede a cultura, como uma adubação adequada da terra, foram rigorosamente mantidos:
— O maior patrimônio do agricultor é o solo onde ele produz. E a perda com esses eventos (do clima) é um dano inestimável, leva anos para recuperar. A maioria dos produtores tem os seus cuidados, mas dependendo da força, não tem o que fazer — relata.
Novo peso no endividamento
Em meio às dívidas acumuladas em decorrência das intempéries nos últimos anos, os agricultores apostam na safra de inverno como forma de tirar uma renda a mais. Mas, com a volta da chuva, o prejuízo vai pesando na conta. Segundo levantamento da Federação da Agricultura do RS (Farsul), o endividamento dos produtores gaúchos passa de R$ 72 bilhões.
— Tínhamos colocado calcário antes de plantar o trigo e a chuva levou embora. Não afetou o trigo propriamente, mas a lavoura, e isso é um custo que teremos, de colocar de novo. O dinheiro começa a ficar curto — diz o produtor de Santa Bárbara do Sul.
Na propriedade de Schiochet, em Não-Me-Toque, o planejamento se mostra mais uma vez fundamental. Embora viesse organizado financeiramente, os anos seguidos de produção menor queimaram a “gordura” para investimentos. O plantio no inverno, portanto, é uma forma de se preparar.
— Sempre vimos o trigo como uma cultura importante para a rotação e para gerar receita extra. E quando bem trabalhada pode rentabilizar, mesmo que não seja a solução para resolver o endividamento — observa o produtor.
Como proteger os cultivos durante o inverno
Engenheiro agrônomo e chefe de Desenvolvimento de Mercado da BASF em Passo Fundo, Felipe Michelon lembra que o trigo é uma cultura na qual qualquer excesso atrapalha. Proteger a fase inicial do desenvolvimento é fundamental.
A perda de solo é um dos pontos de maior atenção entre os produtores. Depois dela, o foco é o atraso na semeadura, que pode prejudicar o andamento da lavoura. O ciclo da cultura fica mais curto, mas, segundo Michelon, com manejo certo e ajuda do clima, ainda é possível fazer com que a perda na produção seja controlada.
— Aí entra outro ponto que é o de não jogar a toalha. Ou seja, ainda investir nessas áreas, porque mais da metade do investimento está na semente e no fertilizante, um gasto que já foi feito. É colher para cobrir os custos — indica o engenheiro agrônomo.
Em relação ao replanejamento dos plantios, o profissional lembra que o atraso também pode ser benéfico às culturas no caso de o inverno se esticar. Isso mantém o ciclo da planta nas condições climáticas que são esperadas para a época, evitando danos maiores com a geada tardia, por exemplo, que pode ser irreversível no cereal.
Conforme a Emater, a necessidade de replantio das áreas de trigo tem sido pontual no Estado. E onde houve implementação de culturas de outono, os danos no solo foram menores.
Dicas práticas para os grãos
Outras orientações práticas ajudam a contornar problemas relacionados ao clima nos cultivos de inverno. Algumas delas são indicadas pelo Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada (Copaaergs), ligado à secretaria da Agricultura do RS.
- Escalonar a época de semeadura para evitar comprometer toda a produção.
- Preferencialmente, utilizar cultivares de cereais resistentes a doenças.
- Evitar fazer a semeadura em solos excessivamente úmidos.
- Planejar a proteção das plantas com atenção especial ao controle de giberela, fungo que contamina os grãos nos cereais e reduz a produtividade das lavouras.
O que é produzido no inverno?
Os cultivos da safra de inverno são os que se adaptam ao clima típico da estação. No Rio Grande do Sul, a temporada tem como principais produtos agrícolas o trigo, a cevada, a aveia, a canola, e, mais recentemente, a carinata — oleaginosa da família da canola.
Conforme projeção inicial da Emater, a colheita gaúcha de inverno deve somar 4.936.010 toneladas de grãos este ano, produção 2,25% maior do que a da temporada passada.
Fonte: Zero Hora
Foto: Fabiel Belini / Divulgação
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