Reciclador transforma sua casa em museu com raridades achadas no lixo em Porto Alegre
Imagine um espaço que preserva quadros de pintores consagrados, edições raras de livros e itens exóticos, como uma cabeça de tubarão empalhada. Porém, surpreendentemente, todas as peças desse local foram encontradas no lixo. Trata-se do Museu de Resgates, que fica no Loteamento Santa Terezinha, conhecido como Vila dos Papeleiros, no bairro Floresta, em Porto Alegre.
Entre as preciosidades, podem ser vistas uma pintura do artista Walmor Corrêa, catarinense radicado em São Paulo que morou em Porto Alegre, e uma gravura da artista italiana radicada na capital gaúcha Maria Di Gesu. Também foi resgatada do lixo uma pintura do artista e professor porto-alegrense João Faria Vianna (1905-1975). Os três criadores têm obras no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e carreiras consolidadas.
Além disso, tomos raros do livro ilustrado Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), estão preservados no Museu de Resgates.
Coleção começou com revista Playboy rara
O reciclador Jacson Carboneiro, 35 anos, é o idealizador do espaço, que existe desde 2019. Natural de Porto Alegre, ele puxou carrinhos pelas ruas da cidade durante muitos anos. Naquela época, encontrava os mais diferentes objetos descartados no lixo. E não teve dúvidas: decidiu guardar o que acreditava ter valor histórico e comercial.
— A primeira peça de valor que encontrei foi a revista Playboy da Xuxa. Quando o Pelé namorou ela, queria tirar a revista de circulação. Achei que essa revista ficaria escassa e acabei guardando — recorda Carboneiro.
O Museu de Resgates fica na própria casa do idealizador do espaço. As peças estão espalhadas por três pisos da moradia. No local, Carboneiro vive com a ex-esposa e dois filhos. Cerca de 500 itens formam a coleção de objetos resgatados do lixo.
Como surgiu a ideia
Carboneiro conta que no início não tinha pensado na possibilidade de criar um museu. Era apenas uma área particular de sua casa. E os visitantes eram amigos curiosos com a coleção, que aumentava a cada retorno dele das ruas.
— Eu achava muito ruim encontrar uma pintura assinada, saber que é um artista ali e que a obra foi desprezada. Então, resgatamos e damos uma nova história para ela — explica.
Quando encontrava algum quadro descartado no lixo, o sentimento era de "espanto":
— A intenção era encontrar algo raríssimo e manter para valorizar a peça. Mas comecei a reunir tudo que era aleatório: de relógios antigos a telefones analógicos. Pretendia no futuro mostrar essas peças para os meus filhos e para as crianças.
O que tem no Museu de Resgates?
Além das obras de arte, há cédulas e moedas antigas, bijuterias e peças em prata e bronze, relógios de pulso e despertadores, chaveiros, brinquedos, objetos de decoração e muitos equipamentos analógicos, como câmeras fotográficas, filmadoras, rádios a válvula, aparelhos de som, guitarra, prancha de surfe e até máscara de gás.
Entre dezenas de itens, o reciclador revela o que considera mais curioso entre suas descobertas:
— O que achei interessante foi uma cabeça de tubarão (empalhada), que foi bem fora do comum. E umas bonecas antigas que assustam.
Visitas apenas com agendamento
O diretor do Museu de Resgates da Vila dos Papeleiros, o fotógrafo Cristiano Sant'Anna, explica como funciona o acesso ao espaço, ainda desconhecido do grande público:
— Este é um museu disfuncional, fechado. As visitas são por agendamento.
Sant'Anna conta que já conhecia o pai de Jacson, o líder comunitário Antônio Carboneiro, presidente da Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (Arevipa), quando teve acesso ao espaço com as peças preservadas.
Certa vez, esteve no imóvel para ver livros de fotografia feitos pelo líder da comunidade. Foi quando conheceu seu filho Jacson. Os dois se tornaram amigos e saíram para fotografar e coletar objetos na rua.
— Em janeiro de 2019, estávamos eu e o Jacson tomando um café no pátio da casa e olhando para essa coleção toda. Foi quando eu disse: "Olha, acho que temos um museu aqui". Tem pinturas, fotografias, moedas, selos. E instituímos isso aqui como um museu — lembra Sant'Anna.
Desde então, já foram desenvolvidas ações com projeções de vídeo sobre o museu em eventos como a Virada Sustentável e exposições itinerantes em locais como o Museu de Arte de Montenegro, no Vale do Caí, o Espaço Força e Luz e o Instituto Cultural Remanso, ambos na Capital.
Artista confirmou autoria de obra
O diretor do museu conta uma curiosidade sobre o quadro de Walmor Corrêa resgatado do lixo. A obra, em fundo azul, apresenta três figuras em um cenário que remete a um espetáculo circense.
— O Jacson resgatou a obra e me disse: "Olha que coisa louca isso. São uns palhaços meio malabaristas". E eu olhei e vi escrito "1995, Walmor Corrêa". Eu disse: "Conheço esse cara e essa assinatura". Liguei para o Walmor, contei a história do museu e mandei a fotografia do quadro. E o Walmor confirmou: "Esse trabalho é meu. É de uma época que eu fazia muito cenário para teatro. Acho ótimo que esteja no acervo do Museu de Resgates e, quando eu for a Porto Alegre, quero visitar" — relata Sant'Anna.
Como visitar o Museu de Resgates
Visitas ao espaço podem ser agendadas pelo Instagram. A entrada é gratuita
O museu também preserva fotos e artigos sobre a história da Vila dos Papeleiros e do líder comunitário Antônio Carboneiro
Fonte: GZH
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