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Pesquisadores descobrem no interior do RS fóssil de réptil "avô dos dinossauros"

  • Data: 11/jun/2026

Uma equipe de paleontólogos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) identificou uma nova espécie de réptil fóssil encontrada no interior do Rio Grande do Sul (RS). O feito foi divulgado nesta quarta-feira (10) no periódico científico Scientific Reports.

Quando a espécie caminhou sobre a Terra
Batizada de Silescelida acristata, a nova espécie é uma espécie de avô dos dinossauros. Ela viveu há 240 milhões de anos, em uma época em que os ecossistemas terrestres ainda se recuperavam da maior extinção em massa da história da Terra, a extinção Permo-Triássica.

Os primeiros dinossauros — répteis com os membros posicionados diretamente sob o corpo e adaptações esqueléticas que permitiam uma locomoção mais eficiente — surgiriam cerca de 10 milhões de anos depois.

História evolutiva nas Américas
A investigação foi liderada por pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM. A descoberta pode auxiliar na compreensão de um dos capítulos mais importantes da história evolutiva dos vertebrados terrestres – a origem dos arcossauros, grupo que inclui dinossauros (os que foram extintos e os que evoluíram para aves) e crocodilos.

Segundo o paleontólogo Maurício Silva Garcia, autor principal do estudo e aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM, isso amplia a área geográfica em que esses animais ocorriam e mostra que a América do Sul está envolvida diretamente com a origem dos arcossauros.

— Isso é importante para entendermos a origem desse grupo, que está vivo até hoje — explica o paleontólogo da UFSM.

O fóssil foi encontrado no município de Dona Francisca, na região central do Estado, em rochas do Período Triássico Médio (entre 247 a 237 milhões de anos atrás, aproximadamente). O sítio fossilífero faz parte do Geoparque Quarta Colônia UNESCO, que já revelou uma rica fauna de espécies fósseis, incluindo fragmentos de alguns dos dinossauros mais antigos do mundo. O novo fóssil inclui partes dos membros de uma espécie até então desconhecida.

Segundo os autores, a nova espécie pertence a um grupo de répteis arcossauriformes que apresentam características anatômicas semelhantes às observadas nos ancestrais dos dinossauros e crocodilos. As análises do grau de parentesco indicam que o animal pode estar relacionado aos Euparkeriidae, um grupo raro e ainda pouco compreendido, conhecido principalmente por fósseis encontrados na África do Sul, China, Rússia, Polônia e Alemanha.

A “redescoberta” do fóssil
Encontrado há cerca de 20 anos, o fóssil de Silescelida acristata ficou sem identificação até então, uma vez que parte do fóssil contendo informações essenciais sobre sua procedência havia sido acidentalmente perdida. Apenas em 2022, durante uma visita técnica, os pesquisadores localizaram o fragmento desaparecido na coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Assim, foi possível confirmar a origem do espécime e realizar sua descrição e identificação formal, cujo resultado foi divulgado agora. Além de Garcia, participaram do estudo Francesco Battista, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gabriela Menezes Cerqueira, Marco Brandalise de Andrade e Rodrigo Temp Müller, do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM.

Características inéditas
O próprio nome da espécie faz referência à sua história. O nome Silescelida une as palavras em latim e grego antigo que significam “silêncio” e “perna”. O silêncio se refere ao fato de que parte do fóssil ficou perdida por anos antes de ser finalmente redescoberta. E “perna” refere-se ao fato de que o material encontrado consiste principalmente de ossos dos membros, incluindo o fêmur (osso da coxa).

Já a palavra acristata significa literalmente “sem crista”. Este nome foi escolhido porque o fêmur do animal não possui uma crista ou protuberância óssea elevada, onde o músculo da cauda se prenderia, o que o diferencia de quase todos os seus parentes próximos.

Silescelida acristata era um animal relativamente diminuto, comparável em tamanho a um jacaré pequeno, com estrutura esguia e locomoção em quatro patas. Sua dieta provavelmente incluía animais menores.

Assim como espécies aparentadas, apresentava membros posicionados de forma semi-ereta, projetados mais abaixo do corpo do que lateralmente. Essa característica permitia uma locomoção mais eficiente e ágil, reduzindo o arrasto do ventre contra o solo e representando uma inovação na evolução dos ancestrais dos dinossauros e crocodilos.

Relevância da América do Sul
A pesquisa mostra que a América do Sul pode ter desempenhado um papel mais importante do que se imaginava na diversificação dos arcossauriformes. A presença de Silescelida acristata sugere que esse grupo era mais amplamente distribuído durante o Triássico do que indicava o registro fóssil conhecido até então.

A descoberta também reforça o reconhecimento do Rio Grande do Sul como uma das regiões mais importantes do mundo para o estudo da fauna triássica, período que testemunhou a ascensão dos grupos que viriam a dominar os ecossistemas terrestres durante a Era dos Dinossauros. O fóssil de Silescelida acristata está depositado no acervo científico da PUCRS, em Porto Alegre.

Fonte: GZH

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