Projeto de educação alternativa em Guaporé se torna escola de Educação Infantil
Um dos projetos de educação mais diferenciados da Serra acaba de se tornar uma nova escola. Desde o início de julho, a Cidade Escola Ayni, em Guaporé, recebeu a permissão do Conselho Municipal de Educação para atuar como escola de Educação Infantil.
Há 10 anos, o espaço funciona no contraturno escolar, sendo uma alternativa gratuita para crianças de quatro a 12 anos. A mudança de atuação, no entanto, já estava nos planos da instituição, que havia iniciado os trâmites do processo em 2025.
— A Ayni surgiu como um projeto de acolhimento. Lá em 2015, quando foi idealizado, o espaço se propôs a ser uma alternativa ao ensino formal, onde as crianças pudessem se experimentar. Dentro desse planejamento, está a transição da nossa administração para a prefeitura. Era nosso sonho entregar ao município uma escola pública com a nossa pedagogia — detalha a diretora Ana Carolina Mariz Costa de Medeiros.
Conforme ela, o maior desafio foi atender às exigências burocráticas. O credenciamento foi expedido em 3 de julho, permitindo à Ayni ter a primeira turma no segundo semestre deste ano. As aulas se iniciam oficialmente em 2 de agosto.
Das crianças atendidas atualmente no local, seis podem permanecer, devido à faixa etária. Para isso, os pais precisam fazer a matrícula na Ayni e transferir os filhos das escolas que estavam frequentando. As demais famílias estão participando de um processo de encerramento na instituição.
— Temos 14 vagas para este ano. Mas já são 15 as famílias interessadas para o próximo, que é o máximo que os nossos ateliês comportam. As matrículas são feitas aqui mesmo, para crianças que moram em Guaporé. A prioridade são pessoas com deficiência ou neuroatipicidade, famílias LGBT+ ou pessoas não brancas. Na ausência desses critérios, usamos a fila de espera — explica.
Sem aulas, sem provas
Como escola de Educação Infantil (Pré 1 e Pré 2), o foco serão crianças de quatro a seis anos. A metodologia de aulas seguirá o padrão já adotado pela escola: sem cronograma de conteúdos, trabalhos ou provas.
Na prática, a Ayni segue a pedagogia Waldorf. Criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, a abordagem busca desenvolver as crianças de forma integral, priorizando o brincar, o contato com a natureza e a combinação entre o aprendizado acadêmico e atividades artísticas, culturais e experiências práticas.
— A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz campos de conhecimento e objetivos em vez de disciplinas para essas turmas. Dentro do que desenvolvemos, já trabalhamos com alfabetização, por exemplo. O ambiente é organizado e o educador está disponível para ajudar nos caminhos que a criança seguir — detalha.
Contudo, a equipe de trabalho adaptou a forma de avaliação dos alunos para comprovar o aprendizado ao Conselho Municipal de Educação e ao Ministério da Educação.
Desafio financeiro
Com a transformação em escola de Educação Infantil, aumentam também os desafios financeiros para manter a iniciativa gratuita. Até então, eram necessários cerca de R$ 50 mil por mês para custear as atividades. Com a formalização da escola, a oferta de dois turnos de atendimento e o aumento do número de alunos, a estimativa é de que os custos dobrem.
— Contamos com doações de empresas, vendemos cursos, promovemos imersões e agora estamos nos preparando para lançar uma pós-graduação. Também buscamos participar de editais públicos. Mas, em nenhuma circunstância, será cobrada mensalidade dos alunos. A Ayni é uma escola gratuita pela essência e pelo estatuto — garante a diretora.
Desde o ano passado, a instituição busca parceiros para viabilizar a construção de novos espaços, como uma biblioteca e um ateliê adicional. Além de ampliar as possibilidades pedagógicas, as estruturas complementarão os ambientes já existentes no Parque Ecológico Municipal Honorato Toniolo.
— É uma escola bioconstruída dentro de um parque municipal, cedido pela prefeitura, bem no meio da cidade. Procuramos no Brasil e não encontramos nenhum outro projeto nesse formato. Em 2035, a cedência termina e o espaço passará para a administração municipal. A ideia sempre foi construir algo que permanecesse na cidade para além de quem iniciou o projeto — conclui Ana.
Fonte: GZH
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