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O corpo lembra: estudo global revela impacto oculto de traumas de infância nos adultos

  • Data: 27/jul/2026

Experiências traumáticas vividas na infância podem deixar marcas que transcendem o campo emocional e impactam diretamente a saúde física, aumentando as chances de desenvolver diversas doenças na idade adulta.

Isso é o que mostra um artigo de revisão científica (que analisa pesquisas anteriores) publicado na eClinicalMedicine, revista do prestigiado grupo The Lancet.

O estudo conta com a participação de pesquisadoras do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade do Vale do Taquari (Univates), ao lado de acadêmicos de Espanha, Alemanha, Reino Unido e Itália.

A partir da análise de dados de mais de 6 milhões de pessoas em todo o mundo, o trabalho concluiu que traumas infantis derivados de abusos físicos, sexuais ou emocionais, bullying e convivência com situações de violência doméstica e abuso de drogas, entre outras experiências, têm relação "altamente sugestiva" com mais de 15 doenças não mentais.

Quais são as doenças físicas ligadas a traumas infantis?
Confira lista compilada pelo estudo internacional:

  • Cefaleia — inclui dores de cabeça em geral e enxaqueca
  • Síndrome do intestino irritável
  • Diabetes tipo 1 e tipo 2
  • Doenças cardiovasculares — inclui condições como doença coronariana, infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca
  • Obesidade e sobrepeso
  • Distúrbios metabólicos e endócrinos em geral
  • Doenças do aparelho genital feminino — inclui condições como endometriose, surgimento de miomas e síndrome ovariana metabólica poliendócrina
  • Cólica menstrual grave, dor pélvica e dor na relação sexual
  • Infecções e sintomas do trato urinário inferior
  • Esclerose múltipla
  • Doenças respiratórias — inclui doença pulmonar obstrutiva crônica e outras doenças pulmonares crônicas
  • Câncer — inclui vários tipos de neoplasias
  • Dor somática e fibromialgia
  • HIV
  • Alterações biológicas específicas, como a desregulação do sistema imune, distúrbios autoimunes e impacto na função mitocondrial do músculo esquelético


Quais experiências adversas entram na lista de risco?
Conforme a pesquisa, as chances de desenvolver essas doenças ao longo da vida podem ser até quase duas vezes maiores para crianças que foram expostas a alguma experiência adversa na infância. O termo é utilizado pelos pesquisadores para englobar os seguintes traumas:

  • Abuso físico
  • Abuso sexual
  • Abuso emocional
  • Bullying
  • Negligência física
  • Negligência emocional
  • Divórcio ou separação dos pais
  • Morte de um dos pais
  • Encarceramento de um dos membros da família
  • Dificuldades financeiras ou desemprego dos pais
  • Testemunho de qualquer forma de violência em casa
  • Convivência com familiares que abusam de substâncias químicas
  • Doença mental em membro da família
  • Disfunção familiar generalizada

As evidências mais robustas foram para o desenvolvimento de cefaleia, síndrome do intestino irritável, diabetes e doenças cardiovasculares. A relação entre os traumas e as doenças também demonstrou ser mais efetiva para as mulheres.

Ainda assim, o estudo concluiu que todos os traumas mapeados estão relacionados, em maior ou menor grau, a todos os desfechos médicos listados, independentemente do gênero.

O mecanismo oculto: por que o trauma vira doença física no corpo?
Adriane da Rosa, pesquisadora do Laboratório de Psiquiatria Molecular do HCPA e professora do Departamento de Farmacologia da UFRGS que é autora sênior do estudo, explica que o motivo da associação entre as experiências adversas da infância e as doenças na idade adulta ainda não está completamente esclarecido.

Entretanto, algumas hipóteses ajudam a entender a relação, como o efeito biológico que os traumas geram no organismo.

— Quando se vive uma experiência traumática na infância, ocorre uma desregulação no eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), que controla a produção de cortisol e é o principal sistema de resposta ao estresse do corpo humano. Essa alteração persiste até a fase adulta e está conectada ao aumento da inflamação, o que funciona como uma alavanca para o desenvolvimento de doenças — explica a professora da UFRGS.

A pesquisadora cita também a via comportamental, sugerindo que, por conta de um trauma infantil, os indivíduos podem se tornar adultos com estilos de vida pouco saudáveis:

— O trauma pode trazer desfechos como sedentarismo, má alimentação, dificuldade de lidar com adversidades, abuso de substâncias e exposição a situações de risco. E sabemos que o estilo de vida interfere no surgimento de diversas doenças.

Fator gênero: por que as mulheres sofrem mais os impactos?
Já o possível motivo de as evidências terem sido mais fortes para as mulheres do que para os homens está relacionado às desigualdades de gênero. É o que explica Joana Bücker, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Univates que é coautora do estudo:

— Não é que os homens não passem por experiências traumáticas, mas, de modo geral, as mulheres estão mais expostas a traumas durante a infância e são mais vulneráveis a certas situações ao longo da vida.

A importância de investigar o histórico dos pacientes
Para Adriane da Rosa, a grande contribuição do estudo é comprovar a ligação entre traumas infantis e doenças físicas, menos explorada que a relação com os transtornos psiquiátricos:

— Estamos habituados a associar experiências adversas na infância a problemas de saúde mental, mas não tínhamos evidências robustas de que esses traumas também podem levar a doenças não mentais. Esse é o ponto de originalidade e o ineditismo deste estudo.

A partir desses achados, a pesquisadora defende que o histórico de saúde mental seja investigado complementarmente:

— Ao receber um paciente com sintomas físicos, a investigação não deveria se limitar a esses sintomas. Deveríamos implementar triagens sobre traumas na infância e questões de saúde mental. A integração é essencial, pois não estaremos fisicamente bem se não estivermos emocionalmente bem.

Prevenção: como a medicina pode mudar sua abordagem
Joana Bücker complementa, citando que o acompanhamento integral de crianças expostas a traumas poderia evitar possíveis desfechos médicos futuros:

— O estudo ajuda a entender a gravidade do trauma infantil e o prejuízo a longo prazo. Por isso, precisamos deixar de trabalhar apenas no tratamento da pessoa já doente e investir em estratégias de prevenção, agindo com crianças que estão em grupos de risco para evitar que desenvolvam doenças clínicas no futuro.

Conforme as pesquisadoras, o próximo passo da linha de pesquisa envolve testar estratégias terapêuticas específicas para o tratamento do trauma e protocolos de prevenção precoce.

Como foi feito o estudo
Para chegar aos resultados, o estudo utilizou um método conhecido como revisão guarda-chuva (umbrella review). Nessa metodologia, em vez de analisar pacientes individualmente, agrupa-se o maior número de pesquisas clínicas confiáveis sobre um determinado tema para revisá-las.

Porém, esse trabalho é feito a partir de outras revisões sistemáticas e meta-análises realizadas anteriormente sobre os estudos primários, como uma espécie de "revisão da revisão".

— Na hierarquia dos estudos clínicos, a revisão guarda-chuva está no topo da pirâmide das evidências científicas — diz Adriane da Rosa.

A professora da UFRGS explica que pesquisas clínicas individuais, por incluírem um número menor de pacientes, podem acabar chegando a resultados limitados. Já a revisão de um universo maior de dados permite a identificação dos possíveis vieses e a conclusão de uma evidência final muito mais sólida.

Joana Bücker esclarece que a seleção dos estudos que integrariam o trabalho foi rigorosa, feita por meio de um método que permite medir a qualidade de revisões sistemáticas e meta-análises:

— Para se ter ideia, identificamos inicialmente 1.820 estudos, mas apenas 36 atenderam aos requisitos para entrar na amostra final.

Fonte: GZH

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