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"Mounjaro para cães" chega ao Brasil: entenda como funciona e o que dizem os especialistas

  • Data: 14/ago/2026

Um suplemento para controle de peso canino, apelidado nas redes sociais de "Mounjaro para cães", chega ao mercado brasileiro em setembro com lista de espera de mais de 40 mil tutores. Fabricado pela Wigow, o produto custará R$ 123,45 por mês no plano de assinatura e não exigirá prescrição veterinária.

O suplemento tem formato de coração, imita um petisco e pesa 12 gramas. Cada unidade reúne L-carnitina, proteína de salmão, fibras e vitaminas e soma 32,8 calorias (kcal), unidade que mede a energia fornecida pelo alimento. É cerca de um terço das calorias de um biscoito canino tradicional.

A recomendação é de um tablete por dia para cães de até 10 quilos, por tempo indeterminado. A empresa informa que a fórmula foi aprovada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e desenvolvida por médicos-veterinários.

O apelido partiu das redes sociais, e a própria fabricante faz questão de afastar a comparação. O Mounjaro é um medicamento injetável de prescrição, à base de tirzepatida, que age sobre receptores hormonais do intestino ligados à digestão e ao apetite. Nada disso está presente em um tablete de L-carnitina, fibras e proteína de salmão.

— Nosso produto acabou sendo apelidado pelo mercado como "Mounjaro para cães", mas não é um medicamento. Por ser um suplemento, atua em conjunto com dieta equilibrada, exercício e acompanhamento veterinário, nunca no lugar deles — afirma Roberto Funari, fundador e presidente-executivo da Wigow.

O que cada ingrediente faz
Suplemento alimentar é um produto administrado por via oral que complementa a dieta, com composição variável.

— Costuma incluir fibras, que promovem a sensação de saciedade, aminoácidos e derivados, probióticos para regulação intestinal e vitaminas. É uma estratégia, mas não é a única — explica Juliana Gottlieb Sebem, médica-veterinária e docente da Universidade Atitus.

A fibra chega ao estômago, distende a parede do órgão e reduz a quantidade de comida que o animal procura. O derivado de aminoácido, no caso a L-carnitina, entra por outro motivo: preservar músculo enquanto o corpo perde gordura.

— A L-carnitina utiliza a gordura das células e ajuda no metabolismo das gorduras, mas sozinha não resolve. Para emagrecer, é preciso um protocolo, com acompanhamento de médico-veterinário, nutrólogo ou nutricionista — afirma Raquel Valim Labres, médica-veterinária mestre em nutrição de cães e gatos, que atua no Grupo Hospitalar Pet Support.

A observação não é nova. Em artigo publicado na revista técnica Vet&Share, em janeiro de 2020, o endocrinologista veterinário Álan Gomes Pöppl já classificava como um grande equívoco a ideia de que a suplementação de L-carnitina, por si só, promove emagrecimento. Para ele, o ponto de partida é o mesmo em qualquer espécie.

— Para um paciente perder peso, seja uma pessoa, um cão ou um gato, é preciso o que chamamos de balanço energético negativo: ingerir menos calorias do que se gasta. Sem isso, não existe perda de peso — explica Pöppl, que é sócio-fundador da Associação Brasileira de Endocrinologia Veterinária (ABEV), da qual é diretor científico, e também fala pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS).

Na avaliação dele, o tablete não acrescenta calorias em quantidade suficiente para atrapalhar esse processo, mas também não é o que determina o emagrecimento.

Pöppl, porém, reconhece méritos na composição. A proteína de salmão é de alta qualidade e, por ser um ingrediente com o qual a maioria dos cães teve pouco contato, reduz o risco de alergia alimentar. As fibras modulam a função gastrointestinal e o microbioma e ajudam a manter o produto com baixa densidade calórica.

— Se a gente simplesmente reduz a quantidade da ração comum, o animal pode até emagrecer, mas tende a perder mais massa muscular e sentir mais fome. Já uma dieta específica para perda de peso ajuda a preservar os nutrientes, aumenta a saciedade e facilita a adesão ao tratamento — explica.

Por isso, para Pöppl, o suplemento pode ser um complemento, mas não é indispensável para o emagrecimento.

— A quantidade de alimento, calculada adequadamente por um veterinário para induzir a perda de peso, é suficiente na maior parte das vezes. E, junto com atividade física, ajuda ainda mais. Não preciso de um suplemento específico para ter esse resultado — conclui.

Por que a consulta vem antes

Embora o suplemento não apresente, por si só, um risco específico para cães com outras doenças, os especialistas recomendam avaliação veterinária antes de iniciar qualquer programa de emagrecimento. O principal motivo é investigar as causas do excesso de peso e identificar possíveis complicações.

— O grande risco de o tutor fazer a coisa por conta própria é não identificar doenças prévias que contribuam para a obesidade, além de perder a oportunidade de entender quais complicações já estão presentes e podem exigir outros tratamentos, como um analgésico para dores articulares, um remédio para pressão alta ou uma medicação para controlar as gorduras no sangue — explica Pöppl.

A obesidade pode estar ligada a problemas no metabolismo, como o diabetes, e a alterações hormonais, como o hipotireoidismo. Sem avaliação clínica, fica mais difícil identificar a causa do excesso de peso, explica Juliana:

— A alimentação inadequada é apenas uma das condições que podem levar à obesidade.

Quando há outra doença instalada, o programa de emagrecimento precisa ser adaptado.

— A avaliação individual é muito importante. O paciente diabético tem um protocolo diferente, é necessário ajustar as doses de insulina, por exemplo. O cardiopata precisa de cuidados, porque a obesidade sobrecarrega o coração — detalha Raquel.

Até a atividade física deve ser avaliada. O excesso de peso costuma vir acompanhado de osteoartrite, uma doença que causa desgaste e inflamação nas articulações, o que pode limitar a prática de exercícios e exigir acompanhamento específico.

— O ortopedista tem que fazer essa avaliação para liberar o paciente para caminhadas, para exercício físico mais intenso. Nós também temos que ter a avaliação cardiológica desse animal — completa Juliana.

Papel da dieta terapêutica

O tratamento consolidado para cães acima do peso é a dieta de baixa densidade calórica, prescrita e calculada por um veterinário. São rações com alto teor de fibras e proteínas de qualidade, muitas já suplementadas com L-carnitina, que permitem oferecer um volume relativamente grande de alimento sem exceder a quantidade de calorias necessária.

A diferença aparece no rótulo. Alimentos formulados para perda de peso costumam ter entre 2,9 e 3,2 kcal por grama. Os rotulados como light ficam entre 3,5 e 3,9, enquanto as rações de manutenção passam de 4 kcal por grama. Em média, a dieta terapêutica entrega cerca de 25% menos calorias.

Na prática, a dieta para emagrecimento:

  • tem menor quantidade de calorias por grama
  • costuma ser rica em fibras, que ajudam na saciedade
  • tem proteínas de qualidade, importantes para preservar a massa muscular
  • muitas vezes já contém L-carnitina e outros nutrientes

Reduzir apenas a quantidade da ração comum também faz o peso cair, mas pode trazer consequências.

— Acaba sendo um processo que vai levar o paciente à restrição não só de calorias, mas também de aminoácidos e vitaminas essenciais, porque não é um alimento adequado para fazer restrição calórica — alerta Pöppl.

O animal pode perder massa muscular, sentir mais fome e passar a pedir comida com frequência, o que dificulta a adesão do tutor ao tratamento. Por isso, o objetivo apontado pelas três fontes é o mesmo: reduzir o peso preservando a massa muscular.

Ainda falta ensaio clínico, sugerem especialistas
Questionada sobre estudos com a fórmula pronta, a Wigow citou pesquisas com ingredientes isolados. Segundo a empresa, trabalhos com L-carnitina em cães acima do peso mostraram perda de 6,4% do peso corporal e redução de 4,6% da gordura em sete semanas. Em outro estudo citado pela empresa, cães submetidos a uma dieta rica em fibras consumiram cerca de 27% menos calorias.

A Wigow afirma que suplementos para controle de peso já são uma categoria consolidada nos Estados Unidos e que trouxe a abordagem ao Brasil com fórmula própria.

Não houve, porém, ensaio clínico com o tablete que chega às lojas em setembro. Essa é a principal lacuna apontada pelas fontes ouvidas.

— Valeria muito a pena que a empresa promovesse um estudo clínico comparando dois grupos de cães submetidos a uma dieta hipocalórica (com menos calorias do que o animal gasta), em que um grupo recebesse o suplemento e o outro não. Na prática, a ausência de um ensaio clínico não permite assumir que o uso vá promover o benefício esperado — sugere Pöppl.

A cobrança se repete na fala de Raquel:

— O que esperamos é que sejam apresentados estudos que demonstrem a eficácia do produto — diz.

Venda sem receita
A empresa afirma que não houve registro de efeitos adversos nos testes. A venda não exigirá prescrição.

— O produto não é um medicamento e não necessita de prescrição. Trata-se de um suplemento nutricional que deve ser utilizado como parte de um programa completo de controle de peso, sempre com orientação de um médico-veterinário — declara Funari.

A lista de mais de 40 mil interessados foi contabilizada a partir de cadastros e engajamento nos canais da marca desde o início de julho. A empresa não divulga o volume de produção previsto, mas diz ter estoque para a demanda inicial.

Hoje, a Wigow vende cinco suplementos caninos, voltados à mobilidade articular, à saúde digestiva, ao fornecimento de vitaminas e à tranquilidade, e planeja lançar linhas de longevidade, saúde bucal e saúde cardíaca nos próximos meses.

Como funciona um programa de emagrecimento canino

O tratamento começa com a avaliação do peso e da condição corporal do animal. A partir daí, o veterinário define duas referências:

  • Peso meta: objetivo inicial do tratamento
  • Peso-alvo: peso esperado quando o animal atingir uma condição corporal adequada

De saída, não se recomenda buscar uma perda superior a 20% do peso atual.

Com a meta definida, o veterinário calcula quantas calorias o cão precisa consumir por dia para entrar em balanço energético negativo, ou seja, gastar mais energia do que ingere.

Uma das fórmulas mais usadas estima o gasto de energia em repouso multiplicando o peso ideal, em quilos, por 30 e somando 70. Ela é válida para animais entre dois e 25 quilos.

Por exemplo: um cão que deveria pesar 20 quilos precisa de cerca de 670 kcal por dia. A quantidade de ração é calculada a partir da quantidade de calorias que ela fornece por grama.

Para o tratamento funcionar, alguns cuidados fazem diferença:

  • pesar a ração em uma balança de cozinha, em vez de usar copos ou potes dosadores, que podem ser imprecisos
  • dividir a quantidade diária em três a cinco refeições, ajudando a controlar a fome e a ansiedade
  • acompanhar o peso semanalmente ou a cada 15 dias
  • ajustar a dieta e a atividade física quando a perda de peso entrar em um platô, fase em que o ritmo de emagrecimento diminui ou para

Em estudos controlados, a perda de peso fica entre 1% e 2% do peso por semana. Na rotina doméstica, o ritmo costuma ser inferior a 1%, e alguns cães podem levar de 12 a 16 meses para chegar ao peso ideal.

Nem sempre, porém, é preciso chegar ao peso considerado perfeito para obter benefícios. Uma redução de apenas 6% já pode melhorar significativamente a dor de um animal com osteoartrite.

Quantas calorias tem aquele "agrado"
Petiscos devem representar até 10% das calorias diárias calculadas para o cão. O restante precisa ser descontado da quantidade de ração oferecida.

Para um animal que deve consumir 670 kcal por dia, por exemplo, o limite para agrados seria de cerca de 70 kcal. Os números reunidos por Pöppl no artigo da Vet&Share mostram como esse limite pode ser ultrapassado rapidamente:

  • Um biscoito canino comum: 90 kcal
  • Uma salsicha: 140 kcal
  • Uma banana: 90 kcal
  • Duas colheres de iogurte: 41 kcal
  • 100g de presunto: 164 kcal
  • 100g de abobrinha cozida: 21 kcal
  • 100g de chuchu cozido: 18 kcal

Um único biscoito canino, portanto, já ultrapassa o limite diário de petiscos desse exemplo. É nesse ponto que o suplemento da Wigow tem uma vantagem em relação ao agrado tradicional: as 32,8 kcal do tablete ocupam uma parcela menor da cota diária do que as 90 kcal do biscoito.

Chuchu e abobrinha cozidos também podem ser opções para aumentar o volume de comida com poucas calorias.

Fonte: GZH
 

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