Quando o amor vira golpe: como funciona o estelionato afetivo e quais são os sinais de alerta
Quem assiste à novela Quem Ama Cuida, da TV Globo, provavelmente foi impactado pela história de Carmita, interpretada pela atriz Deborah Evelyn. A personagem foi manipulada por Edson, papel de Vandré Silveira, a fazer empréstimos bancários em seu nome e, em seguida, sofrer um golpe financeiro. Essa prática é conhecida como estelionato afetivo ou sentimental, um modelo de golpe que se utiliza da confiança e do afeto, como o próprio nome já sugere, para enganar e extorquir vítimas.
Nos capítulos da novela, Carmita percebeu que o relógio que ele havia dado era falso e passou a desconfiar das histórias dele. Depois, descobriu que tinha caído em um golpe e chegou a procurar a polícia depois de perceber que foi enganada. Em função disso, Edson desapareceu de vez e deixou a socialite atolada em dívidas.
Há pouco mais de um ano, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que o estelionato sentimental, caracterizado pela simulação de relacionamento amoroso com o objetivo de obter vantagem financeira, configura ato ilícito passível de indenização por danos morais e materiais.
De forma simplificada, o estelionato sentimental ocorre quando um parceiro se utiliza dessa condição com o objetivo de obter, unilateralmente, vantagens às custas do outro, seja por meio de dinheiro, carros, roupas, viagens ou quitação de dívidas.
Conforme a psicóloga Lisandra Soares, especialista em atendimento de casais, o manipulador, normalmente, conquista a confiança da vítima no primeiro momento. A partir disso, começa a estabelecer vínculo emocional e a perceber as vulnerabilidades da vítima.
— Pode ser uma mulher que acabou de se separar, mulheres solteiras, que construíram um patrimônio, de 38 a 45 anos... Voltaram a vida inteira para trabalhar, só que elas têm um vazio emocional muito grande. Essa pessoa, que é um manipulador profissional, já consegue perceber no primeiro encontro as necessidades emocionais que a vítima tem, o que ela pode atacar, digamos — explica Lisandra.
Os golpistas normalmente atacam a confiança das vítimas com palavras, mensagens sentimentais e promessas, salienta Lisandra.
— Às vezes, em três ou quatro meses, a pessoa não precisou pegar dinheiro, mas já começa a se aproveitar. Vai morar junto, diz que perdeu o emprego e precisa de ajuda. As mulheres olham para o outro com muita empatia, como salvadoras também — analisa a psicóloga.
Casos parecidos com esse comportamento foram registrados na Serra, em municípios como Caxias do Sul, Guaporé e Farroupilha. Em 2025, Guilherme Selister, que ficou conhecido como o "golpista do Tinder" foi condenado a cinco anos e cinco meses de prisão em regime semiaberto por estelionato contra cinco mulheres.
As investigações da polícia já mostravam um comportamento parecido com o que Lisandra aponta: ele se apresentava como profissional de diferentes áreas, como médico, militar da Marinha e nutricionista. Após conquistar a confiança das mulheres, dizia que sofria de problemas de saúde e convencia as vítimas a emprestar dinheiro para que ele fosse submetido a uma cirurgia em São Paulo. Em um dos casos, uma das vítimas emprestou ao menos R$ 75 mil.
"Inteligência não é uma vacina contra pessoas que podem manipular"
Engana-se quem pensa que as vítimas desse tipo de golpe são apenas pessoas pouco instruídas. E a novela é um exemplo disso. Mulheres formadas e com altos cargos também são potenciais vítimas desse tipo de estelionato. Conforme a psicóloga Lisandra Soares, mulheres independentes criam um sentimento chamado "apego evitativo":
— É um sistema de apego dentro do nosso cérebro, em que se coloca, de uma certa maneira, um "muro". Ou seja, não é qualquer um que vai entrar, porque eu não sou burra. Só que, lá pelos 40 anos, começo a baixar esse muro, porque a necessidade emocional de um vínculo é muito grande. A inteligência não é uma vacina contra pessoas que podem manipulá-las. Às vezes, a pessoa inteligente acaba se focando muito na área profissional e cria vulnerabilidade na área emocional — explica.
Lisandra explica que, independentemente do grau de instrução, da profissão e do perfil da mulher, os estelionatários afetivos conseguem identificar exatamente a fraqueza da vítima e usar isso como um gatilho.
— Ela está vulnerável e, geralmente, a pessoa se aproxima dela e consegue ir exatamente no ponto em que ela está vulnerável. É quase um quebra-cabeça em que estão faltando peças. Tem duas, três faltando. O cara vai lá, descobre e encaixa exatamente aquilo que ela precisa para completar a vida dela — compara a psicóloga.
O quê explica o apego?
O apego ao golpista tem uma explicação fisiológica. Lisandra explica que é comum que o ser humano se apaixone e, a partir disso, o cérebro passe a produzir, principalmente, dopamina e ocitocina, os hormônios do prazer e do vínculo afetivo, respectivamente.
_ Então, se estou apaixonada, não percebo as falhas do outro. Isso tudo é hormonal, não é racional. É tudo do corpo, fisiológico. Passando isso, em até seis meses vem a paixão, e a pessoa começa a enxergar alguma coisa. E, se junto com a paixão, vêm pessoas que são mais vulneráveis, com tendência à dependência, fica mais profundo e mais difícil _ analisa.
Além disso, as expectativas de coisas que podem nunca acontecer também prendem a vítima ao estelionatário.
_ A pessoa começa a dizer que daqui a seis meses vai construir uma casa, vai conseguir um emprego... E a pessoa vai criando essa expectativa. A gente pode pensar até em mulheres que têm relacionamento amoroso com homens casados, que não querem perder a expectativa desse futuro que criaram _ diz.
Sinais em um relacionamento que podem indicar alerta
Conforme Lisandra, é muito difícil que a própria vítima consiga identificar que está em uma situação de estelionato afetivo.
— É mais algo externo, porque ela vai absorvendo isso como uma verdade absoluta entende. Às vezes, é até uma questão de uma intervenção da família ou até da polícia, porque acaba evoluindo para uma situação mais criminosa — explica.
No entanto, há alguns sinais que podem ser observados quando o relacionamento está começando:
- Apelidos carinhosos sem intimidade (exemplo: princesa, meu amor, minha querida).
- Atenção a uma relação com troca de intimidades muito rápida.
- Da mesma forma, é importante prestar atenção a cobranças desde o início do relacionamento.
Fonte: GZH
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