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Anvisa aprova novo medicamento para prevenir crises de enxaqueca; veja como funciona

  • Data: 08/set/2026

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta terça-feira (8) o registro do Aquipta, medicamento de uso diário para prevenir crises de enxaqueca em adultos que têm pelo menos quatro episódios por mês. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) e contempla casos de enxaqueca episódica e crônica.

O medicamento é da farmacêutica AbbVie e tem como princípio ativo o atogepanto. A Anvisa liberou duas apresentações:

  • 10 miligramas, em caixas com 28 comprimidos
  • 60 miligramas, em caixas com 28 comprimidos


O registro foi concedido pela Resolução nº 3.458/2026 e vale até setembro de 2036. Os 36 meses citados na publicação correspondem ao prazo de validade dos comprimidos, e não à duração da autorização sanitária.

Não se trata de um analgésico para ser tomado no meio da crise. O Aquipta entra na categoria dos preventivos, tomados diariamente para reduzir a frequência e a intensidade dos episódios ao longo do tempo.

A enxaqueca é uma doença neurológica marcada por crises recorrentes de dor de cabeça de intensidade moderada a grave, quase sempre acompanhadas de náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som. A doença atinge cerca de 15% da população mundial e tem impacto direto no trabalho, na vida social e no uso de serviços de saúde.

No Brasil, a AbbVie estima que 31 milhões de pessoas convivam com a doença, e calcula que a perda de produtividade provocada pelas crises consuma o equivalente a 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB), algo em torno de R$ 168 bilhões por ano.

Como o atogepanto age nas vias da dor
O atogepanto faz parte de uma classe de medicamentos chamada gepantes. Eles atuam bloqueando a ação de uma molécula conhecida pela sigla CGRP, que está envolvida no processo de dor e inflamação associado à enxaqueca.

O que é o CGRP?
O CGRP é uma molécula liberada durante a ativação das vias da enxaqueca. Ela participa da transmissão da dor e da sensibilização do sistema nervoso.

Para entender como o medicamento funciona, também é preciso conhecer o sistema nervoso trigeminal, conjunto de nervos que leva ao cérebro informações de sensibilidade da cabeça e do rosto e tem papel importante nas crises de enxaqueca.

Durante uma crise, o sistema nervoso trigeminal é ativado e libera, entre outras substâncias, o CGRP. Essa molécula se liga a um receptor nas células nervosas e desencadeia sinais que ajudam a transmitir e intensificar a dor.

O atogepanto bloqueia esse receptor. Com isso, o CGRP tem menos capacidade de ativar essa cadeia de sinais, o que ajuda a reduzir a frequência e a intensidade das crises ao longo do tratamento preventivo.

Para quem o comprimido é indicado
Por ser uma classe relativamente nova e de alto custo, o atogepanto tende a chegar primeiro a pacientes que já esgotaram outras alternativas de tratamento. É o grupo dos casos considerados graves ou refratários, em que a doença deixa de responder adequadamente às terapias disponíveis.

Outro dado amplia as possibilidades de uso: pacientes que não obtiveram resultado com os anticorpos monoclonais contra o CGRP, aplicados por injeção e disponíveis no Brasil há alguns anos, podem responder aos gepantes. Isso pode ocorrer mesmo que as duas classes de medicamentos atuem sobre a mesma via relacionada à enxaqueca.

— Já temos evidência robusta de que pacientes que não responderam aos anticorpos monoclonais anti-CGRP podem responder aos gepantes, principalmente aqueles que ainda respondem ao uso agudo de analgésicos — aponta Alexandre Venturi, neurologista e membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe).

Há ainda uma possibilidade que os preventivos tradicionais não oferecem da mesma forma: o uso por períodos curtos para prevenir crises em situações específicas.

Medicamentos como anticonvulsivantes e betabloqueadores podem levar semanas ou meses para atingir o efeito esperado, o que exige tratamento contínuo. Os gepantes, por outro lado, começam a agir no mesmo dia, abrindo espaço para a chamada profilaxia de curta duração.

A estratégia pode ser usada quando o paciente sabe que estará mais exposto a fatores que costumam desencadear crises. Alguns exemplos são:

  • período pré-menstrual
  • semana de provas ou exames, em que há maior estresse e alteração da rotina
  • períodos de trabalho especialmente exaustivos

— Isso permite que sejam usados por curtos períodos para gerar uma proteção extra em situações de alto risco, como o período pré-menstrual, uma semana de provas na faculdade ou um mês de trabalho muito exaustivo, evitando crises que provavelmente apareceriam nesses momentos — explica o neurologista.

Preço ainda não tem estimativa
O registro sanitário é apenas a primeira etapa. Antes de o remédio ser vendido, a fabricante precisa submeter o valor à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), colegiado federal que estabelece o teto de preço no país.

Procurada por Zero Hora, a AbbVie não apresentou estimativa de custo nem data de lançamento.

— Todos os medicamentos aprovados no Brasil passam pela análise da CMED, que define os preços com base em diversos critérios e referências internacionais. Esse também será o caso do atogepanto, cujo custo no país ainda não conseguimos prever — afirma Fernando Mos, diretor médico da AbbVie Brasil.

O que mostram os estudos
A eficácia do medicamento na prevenção foi avaliada em dois estudos de fase 3.

Estudo ADVANCE
Publicado na revista científica New England Journal of Medicine, o estudo ADVANCE acompanhou 910 adultos com quatro a 14 dias de enxaqueca por mês, durante 12 semanas.

Entre os que receberam 60 mg uma vez ao dia:

  • a média de dias de enxaqueca caiu 4,2 dias por mês
  • no grupo placebo, a redução foi de 2,5 dias
  • a diferença atribuída ao tratamento foi de 1,7 dia por mês
  • 60,8% tiveram redução de pelo menos metade nos dias de crise, contra 29% entre os que receberam placebo

Estudo PROGRESS
Publicado na revista The Lancet, o estudo PROGRESS acompanhou 778 adultos com enxaqueca crônica, que registravam cerca de 19 dias de enxaqueca por mês no início da pesquisa.

Com 60 mg diários:

  • a redução média foi de 6,9 dias de enxaqueca por mês
  • no grupo placebo, a redução foi de 5,1 dias
  • cerca de 41% dos tratados tiveram queda de pelo menos 50% na frequência das crises
  • no grupo comparativo, o índice foi de 26%

Entre os efeitos adversos mais frequentes apareceram constipação e náusea. No estudo com pacientes de enxaqueca crônica, cada um deles ocorreu em cerca de 10% dos participantes que tomaram 60 mg por dia.

Fonte: GZH

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