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Como é um dia de carneada e churrasco na fazenda de Mano Lima

  • Data: 18/set/2026

Centenas de ovelhas abriram caminho, balindo, para anunciar ao dono da Fazenda Santa Cecília que visitantes estavam adentrando suas terras no distrito de Timbaúva, zona rural de São Borja. Era pouco antes das 8h, e os campos da propriedade na Fronteira Oeste tentavam vencer a fina camada de gelo formada na madrugada de inverno.

Com a caminhonete da reportagem se aproximando da porteira, dois astutos cães ovelheiros se posicionaram no front, esperando pelo tutor, que logo apareceria pilchado da cabeça aos pés.

Mano Lima estava paramentado com botas, esporas, bombacha, uma faca atravessada na guaiaca, jaqueta personalizada com seu nome para amainar o frio de 7ºC, lenço vermelho e um vistoso chapéu tapeado.

O detalhe mais importante da indumentária estava preso na cintura e se desenrolava quase até o pé: um tirador de couro, já gasto, que serve para proteger as pernas, indicando que naquele dia haveria lida no campo.

E assim foi. Aquela terça-feira de agosto marcava a véspera do aniversário de 73 anos do Filósofo dos Pampas, como o cantor nativista é conhecido, e os festejos precisavam ser do tamanho da relevância que o veterano tem para a cultura gaúcha. Por isso, o cardápio não poderia ser outro: um churrasco de fundamento.

A busca pelo animal
Ao contrário da tendência que hoje atravessa o Rio Grande do Sul, com parrilla, cortes de carne com nomes americanizados e assador usando luvas pretas, neste torrão fronteiriço o jeito de se fazer churrasco é bem mais rústico.

A influência vem dos homens anônimos que no passado singravam os campos no lombo dos cavalos, de tropeiros a charruas, que caçavam as reses, carneavam e comiam no meio da invernada.

Ícone que carrega a bandeira dos costumes de gerações passadas, Mano Lima faz questão de ir à campo, mesmo tendo uma equipe que poderia executar o trabalho.

Encilha seu cavalo crioulo e, liderando a tropa — formada por amigos e companheiros de lida em sua fazenda —, avança pelos campos para arrebanhar o gado, que se alimenta quase exclusivamente das pastagens fartas do pampa. Sem pressa, para não estressar os bichos e, com isso, prejudicar a maciez da carne.

Entre as dezenas de bovinos que marcham em direção à mangueira, uma novilha foi a escolhida para ser abatida. E todo um ritual ancestral foi se desenhando.

— Nossas origens fazem parte de nós e, por isso, temos que procurar sempre por elas para nos sentirmos bem. Essa história tem que ser mantida viva, porque os jovens vão precisar saber como são esses costumes. É como um touro que, quando vai brigar, primeiro finca os cascos na terra para poder vencer a luta, senão ele fica solto — reflete Mano Lima.

Matambre é o primeiro corte
Com a mão treinada por décadas de carneadas, Mano Lima sabe exatamente em que ponto do pescoço da novilha sua faca bem afiada deve ser cravada para fazer a sangria e minimizar o sofrimento do bicho.

Feito o abate, ele faz questão de tomar a frente e ir limpando o animal que acabara de matar. Ao fazer esse cerimonial no meio da invernada, abre uma janela para aqueles que vieram antes dele — de militares a indígenas charruas, que sabiam preparar um assado em qualquer lugar.

Com destreza ímpar com a lâmina, o gaudério começa a carneada em cima do próprio couro do bicho, que está deitado, sem recorrer à técnica de pendurar o animal pelas patas traseiras, como é convencional nos dias de hoje. Tudo ocorre sobre a vegetação.

— Aqui a gente está fazendo o sistema primitivo. Hoje, não se carneia mais assim — ressalta o nativista. — Muita gente vai criticar, mas estamos falando da origem da carneada. Eu mostro como era no passado.

Não demora para que uma extensa tira de matambre seja retirada e, mais ligeiro que um lambari nadando no rio, já esteja assando em um rústico e longo espeto de metal.

— O primeiro pedaço a ser tirado do gado e ir para o fogo é o matambre, que fica entre o couro e a costela. Como o próprio nome em espanhol diz, mata hambre, ou seja, mata a fome — explica o fronteiriço. — Enquanto a carneada está sendo feita, essa parte já está assando e matando a fome da tropa, que cansou na lida.

Causos durante o trabalho
Os homens se dividem: enquanto parte está cuidando do fogo, feito no chão, com lenha, os demais estão às voltas da carcaça. Galhos de laranjeira, garante o cantor, dão um sabor ainda melhor para o churrasco.

O esforço pesa sobre o corpo do músico veterano, que transpira mesmo diante da temperatura amena de 16ºC do final da manhã. Ainda assim, sorri ao lado dos companheiros, que contam causos enquanto trabalham. Para tirar a costela, usam um machado e a força dos braços. Sobre a cena, o artista observa:

— Estou fazendo um verso que trata justamente disso: quero cortar uma madeira no machado e derrubá-la com o suor da minha testa, para valorizar a árvore quando cai. Se eu chegar com uma motosserra, 50 ou cem anos vão para o chão em poucos segundos, e eu não sinto nada. Temos que ocupar o máximo de cada vida, seja de uma árvore ou, mais ainda, de um animal.

Carneada leva uma hora e meia
Cerca de 40 minutos depois do abate, a costela do bicho já havia sido removida e carregada por uma dupla para a beira da fogueira, enquanto os demais seguiam destrinchando o animal.

Um espeto duplo de metal que nitidamente já frequentou inúmeros churrascos foi o escolhido para empalar o precioso pedaço de carne. Não foi fácil, devido ao tamanho do corte, mas nada que os tauras já não tivessem feito milhares de vezes.

Concluído o processo, chegou a hora de fixar a peça ao lado da brasa: uma pedra que estava pelo campo serviu para marretar o espeto de pé, cravando-o na terra. Agora, era questão de tempo.

A carneada total do bicho se estendeu por cerca de uma hora e meia, aproveitando cada centímetro da carne comestível da novilha, das patas para tirar o mocotó até as bochechas.

Tirando o matambre e um lado das costelas, que já estavam assando, todo o resto foi transportado de carrinho de mão e guardado no freezer de Mano Lima, aguardando a festança no dia seguinte.

— Tens que saber respeitar isso e aproveitar o máximo dela, porque ela está deixando de viver para te alimentar. É um animal, mas é uma vida — reforça o artista que, depois da carneada, vai para a beira do fogo temperar a carne com uma salmoura preparada na guampa de um boi, que é reaproveitada como uma cumbuca.

Histórias, piadas e música para esperar o assado
Chegou a hora do descanso do grupo, já ansiado pelo assado que, cada vez mais, espalhava seu cheiro pelo vasto campo.

O ovelheiro Messias e o fila brasileiro Nego não saíam da volta, esperando pelo osso que inevitavelmente iria sobrar. Os homens e a domadora Kelly Mello sentaram-se ao redor do fogo, aos pés de uma árvore. Claudiomir Moreira, o novato da turma, assumiu o posto de assador.

Histórias de presepadas, causos sobre peões folgados e relatos de carneadas difíceis — ocorridas em uma fatia de tempo que, no Interior, pode ter sido no dia anterior ou cinco décadas antes — fizeram a alegria da turma.

O amigo de longa data Edelbrando Godoi era o mais destacado da confraria. Contou piadas e declamou uma jornada épica sua na lida do campo, arrancando palmas, sendo as mais efusivas do anfitrião que, cheio de fãs, mostrou que tem no amigo um ídolo.

Depois, chegou a hora da música. O amigo e empresário Gabriel Percincula apareceu com uma gaita. Interpretou um chamamé melódico, que emocionou Mano Lima.

— Lindo demais — disse, secando os olhos.

Chega o momento de saborear o churrasco
Na sequência, foi anunciado que era hora de tirar a carne do fogo. O cantor e o seu fiel auxiliar João Francisco Machado, o espirituoso Chico, pegaram de dupla a vistosa costela e atravessaram o campo em direção à cozinha da fazenda, que tem ares de galpão.

Por lá, a cozinheira da fazenda, Jane Rodrigues, já tinha feito os acompanhamentos: arroz, feijão, batata doce, aipim e salada verde.

A costela ficou de pé, perto de uma lareira, e cada um ia até lá, cortava um osso e saía comendo, no prato ou na mão — esta era preferência dos gaudérios, que iam tirando os nacos com as facas e comendo sentados na sombra.

— O jeito é cortar grande e se retirar bem longe — anunciou Mano Lima, cravando que havia chegado o momento de encerrar a reportagem, pois era a sagrada hora de comer.

A equipe de Zero Hora atendeu ao pedido do anfitrião, saboreando uma carne que soltava do osso sem esforço e se desmanchava na boca. Uma refeição que alimenta o corpo e a alma, como se fosse um abraço apertado naquele parente que vive longe e a saudade é sempre presente.

O que fica da experiência
A costela durou 25 minutos. E os cuscos, incluindo uma neta da famosa Cadela Baia, que foi tema de música, deleitaram-se com os ossos.

— Quando chego aqui fora, deixo de ser um cantor e volto a ser aquele lá do M'Bororé da minha infância (localidade onde nasceu, hoje parte de Maçambará, na Fronteira Oeste). Levanto de madrugada, encilho um cavalo, abro uma carne como abria para uma tropeada e como no campo com os cachorros. Isso me refaz, me alivia e me ajuda a viver — finaliza Mano Lima, que, depois da jornada campeira, descansou em seu galpão de pedra erguido no meio do pampa, tomando um mate bem cevado, ao lado de um fogo de chão.

Para a reportagem de Zero Hora, a experiência terminou ali. No alvorecer seguinte, teria mais churrasco na Fazenda Santa Cecília. E a tradição seguiria viva.

Fonte: GZH

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