Por que o RS virou referência em doação de órgãos e atrai pacientes de fora para transplantes
Vindo do Amapá, Antônio Silva, 39 anos, cruzou o Brasil para receber um transplante de rim em Porto Alegre em junho deste ano. Para continuar o acompanhamento pós-cirúrgico, ainda deve ficar mais três meses na Capital, onde está há um ano com a esposa Luana Silva, 29 anos.
Sua história ilustra como o Rio Grande do Sul se tornou uma das referências em doação de órgãos no Brasil a partir da conjunção de fatores como experiência e qualificação de profissionais e capacidade de atendimento dos hospitais.
Segundo a Central de Transplantes do RS, vinculada à Secretaria Estadual da Saúde (SES), cerca de 260 pessoas vieram de outros Estados para fazer transplante no Rio Grande do Sul em 2025. No primeiro semestre deste ano, foram aproximadamente 60 pacientes.
É comum que mais de um paciente seja chamado quando há oferta de um órgão. Conforme exames de compatibilidade e condição física são liberados, os médicos vão eliminando os candidatos. Antônio, por exemplo, recebeu dois chamados que não se concretizaram antes da cirurgia:
— Na última vez que eu fui, eram oito pessoas que podiam receber o rim. O médico foi despachando e me disse que eu estava em terceiro. Estava agoniado e com fome, porque tem que ficar quase 24 horas sem comer. Por último, ele disse: "Pode se arrumar que é pra você o rim".
Por que o RS virou referência
Coração, fígado, rins, pulmão, córnea, pele, osso e membrana amniótica são alguns dos órgãos e tecidos transplantados no Rio Grande do Sul. No primeiro semestre de 2026, foram realizados 1.171 procedimentos.
Algumas das maiores referências em transplante no Brasil atuam no Rio Grande do Sul. O médico que realizou o primeiro transplante de pulmão da América Latina, em 1989, o colunista de Zero Hora J.J. Camargo, atua na Santa Casa, em Porto Alegre.
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o transplante pulmonar é realizado em apenas quatro Estados brasileiros: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.
Além da Santa Casa, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o São Lucas da PUCRS também se destacam na realização de transplantes.
— Hoje, o Rio Grande do Sul se tornou referência nacional porque praticamente transplantamos todos os tipos de órgãos do país. E o diferencial é que praticamente tudo que conseguimos captar no Rio Grande do Sul é transplantado aqui mesmo — explica James Cassiano, coordenador adjunto da Central Estadual de Transplantes.
Especialização das equipes
Além da quantidade de procedimentos realizados, a especialização das equipes também ajuda a explicar a excelência. De acordo com a enfermeira Kelen Machado, membro da equipe da Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Santa Casa, todos os dias o Estado recebe órgãos vindos de outros lugares.
O Rio Grande do Sul conta com seis OPOs Clínicas e uma Cirúrgica, também vinculadas à SES. Cada uma fica responsável por uma região gaúcha. Conforme a enfermeira Caroline Caxambu, membro da OPO-1, da Santa Casa, o papel da equipe é acompanhar os hospitais e dar suporte ao longo de todo o processo de doação de órgãos.
Após a entrevista, quando há o aceite familiar, a OPO acompanha até a etapa final de entrega do corpo do doador à família.
— A maioria dos hospitais gaúchos não tem uma equipe especializada interna, que deveria ser a referência. A gente acaba indo nos hospitais e entrevistamos a família também — explica Caroline.
A OPO Cirúrgica, também na Santa Casa, é um diferencial por ser a única do país. A organização percorre hospitais de todas as regiões fazendo não só procedimentos complementares, mas também a captação de órgãos abdominais e transporte de outros órgãos e tecidos.
Quais são as etapas da doação de órgãos?
A partir do momento em que uma família aceita doar órgãos, uma equipe médica entra em contato com a Central de Transplantes para fazer a logística de captação. Depois, todos os dados de exames do doador são incluídos no Sistema Nacional de Transplante. Por fim, o sistema gera uma lista de possíveis receptores.
Com esse ranking, as equipes médicas passam a verificar como estão os pacientes, já que as condições clínicas de pessoas que aguardam por um transplante podem variar com frequência. Só após esse checklist é feito o início do processo de captação de órgãos. Existe um tempo limite em que a maior parte deles pode ficar fora do corpo.
Desde 2024, está em uso o Sistema de Gerenciamento de Doações de Órgãos e Tecidos para Transplantes, o GEDOTT RS, vinculado à SES. O sistema informatizado oficial da Central de Transplantes usa recursos de inteligência artificial para automatizar e agilizar etapas do processo.
Além disso, está sendo implementado um aplicativo de busca ativa ligado ao GEDOTT RS para facilitar o trabalho das equipes especializadas de cada hospital que fazem rondas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), buscando possíveis pacientes com morte cerebral.
Recusa de familiares é desafio
Dados da Secretaria Estadual da Saúde referentes ao primeiro semestre de 2026 apontam que 137 potenciais doações não foram efetivadas porque os familiares não autorizaram o procedimento. O número corresponde a 48,2% das 284 ocorrências (situações em que uma doção poderia ter sido realizada, mas não foi) registradas entre janeiro e junho.
A segunda principal causa para a não doação no período foi contraindicação médica, com 68 casos. Em seguida, apareceu a morte encefálica não confirmada, com 64 ocorrências. Parada cardiorrespiratória foi apontada em quatro casos, enquanto outras causas somaram 11 ocorrências.
De acordo com James Cassiano, coordenador adjunto da Central Estadual de Transplantes, as equipes médicas envolvidas nesse processo procuram entender, durante os atendimentos, o motivo das negativas das famílias:
— O melhor meio (de ser doador) é conversar com a família. Sentar e explicar por que tu tens o desejo de ser doador de órgãos — relata Cassiano, que é um transplantado cardíaco há seis anos.
Pousada para quem vem de fora
Com 26 anos de atuação, a ViaVida é uma entidade que oferece serviços educacionais e assistenciais para ajudar a diminuir a lista de espera por um transplante.
De acordo com Noêmia Gensas, vice-presidente da instituição, que viveu de perto a angústia da espera por um órgão com o marido, em 2004, os hospitais transplantadores da Capital sugeriram a criação de algum tipo de pousada para quem vem de fora.
Desde então, a instituição acolhe pessoas que aguardam por um órgão ou que estão em acompanhamento pós-transplante. Atualmente, a Pousada Solidariedade opera na sua capacidade máxima, acolhendo 32 pessoas em vulnerabilidade social, todas encaminhadas por hospitais.
— A pessoa entra em lista e tem que ficar em Porto Alegre aguardando, porque não sabe quando vai ser chamada. Pode ser chamada de madrugada e, se mora no Interior, não tem como vir — ressalta sobre a necessidade do paciente se hospedar na Capital.
Esperança na fila de doações
A virada de chave para aumentar o número de pessoas doadoras de órgãos, segundo especialistas ouvidos para a reportagem, é se colocar no lugar do outro. Ao lado de histórias como a de Antônio Silva, do Amapá, que conseguiu receber um transplante, há os que aguardam na fila.
É o caso de Miriam Antônia Savero, de 32 anos, que veio do interior de Rondônia e aguarda um rim. Há seis anos, a rotina dela inclui hemodiálise três vezes por semana.
No último ano, ela e o marido, Rafael Ricardo de Paula, 26 anos, estão hospedados em Porto Alegre. Para Miriam, a angústia pela espera segue sem previsão de fim.
— É um ano de puro silêncio. Cada vez que o celular toca, o coração acelera — comenta Miriam.
Mãe se candidatou a ser doadora
O transplante de rim concentra a maior fila de espera entre os órgãos sólidos no Rio Grande do Sul. No primeiro semestre de 2026, 1.493 pessoas aguardavam pelo órgão e 291 transplantes do tipo haviam sido realizados. A demanda por transplante renal pediátrico também é grande.
O garoto Anthony, seis anos, é um dos que aguardam pelo órgão. No nascimento, foi confirmado que ele tinha apenas um rim funcional e outro com cerca de 50% de comprometimento.
A esperança poderá vir de sua mãe, Leni Silva Lemos, 40 anos, que se candidatou como doadora. Eles vieram do interior de Goiás por orientação do Hospital da Criança de Brasília, onde Anthony fazia tratamento.
O menino ficou na fila de espera por um rim pediátrico por três anos. Após duas chamadas que não se concretizaram, agora ele já pode receber um rim adulto.
— Sempre senti o desejo de doar para ele, mas não podia por causa do tamanho. Agora ele já está crescidinho, então vai dar certo — vibra a mãe, Leni.
Fonte: GZH
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