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Mais de 4 mil pessoas com coronavírus morreram fora de UTI no RS em 2021

  • Data: 12/Abr/2021

Óbitos ocorreram em hospitais e UPAs. Não é possível confirmar que todos precisariam de leitos intensivos, mas especialistas apontam para relação entre sobrecarga do sistema e maior mortalidade sem esse atendimento

 

Em meio à terceira onda da pandemia que gerou colapso em hospitais, 4.008 pessoas morreram com coronavírus fora de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Rio Grande do Sul entre janeiro e março, mostra análise de GZH com base em dados do Ministério da Saúde.

O número representa quase 40% dos 10,6 mil mortos confirmados para covid-19 registrados pela Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul (SES) no primeiro trimestre de 2021.

O total de vítimas fora de UTI pode ser ainda maior se levados em conta os 462 óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) não especificada, mas com sintomas para covid-19. A maioria dos casos de SRAG recebe, posteriormente, diagnóstico de coronavírus. Totalizando ambos os diagnósticos, são 4.470 gaúchos mortos fora de UTI. 

Os óbitos ocorreram em leitos clínicos hospitalares, emergências, blocos cirúrgicos e unidades de pronto-atendimento (UPAs). Nem todos morreram na fila por uma UTI – alguns chegaram em estado tão grave que sequer tiveram tempo para aguardar um leito intensivo ou já estavam em estado tão debilitado que uma UTI não traria grandes benefícios.

O cenário ocorre a despeito de o Palácio Piratini ter operado, junto a hospitais, uma expansão de mais de 160% no número de leitos intensivos do Sistema Único de Saúde (SUS), passando de 933 antes da pandemia para 2.464 — afora as 946 vagas hoje existentes na rede privada. É um aumento classificado como jamais visto na história do Rio Grande do Sul.

Mas não foi o suficiente: apesar de representar 5,4% da população do Brasil, o Rio Grande do Sul contribuiu com 15,4% de todos os 37.065 óbitos por coronavírus e SRAG fora das UTIs no país nesses primeiros três meses do ano.

Uma das vítimas foi a cabeleireira aposentada Maria Helena Teles dos Santos, 75 anos. Independente, ela morava sozinha em Alvorada e passou mal em março, alguns dias após ir a uma lotérica recolher o dinheiro da aposentadoria. A família a levou a um hospital da cidade, mas a idosa foi dispensada no mesmo dia sob negativa de coronavírus. Ela ainda realizou um exame de farmácia, também com resultado falso negativo.

No dia seguinte, com mal-estar contínuo e dificuldade de respiração, Maria Helena foi internada na UPA Moacyr Scliar, na zona norte de Porto Alegre. Dois dias depois, foi entubada e teve falência múltipla dos órgãos. Com rins danificados, não pôde fazer hemodiálise pela falta do aparelho necessário, presente apenas em hospitais. Morreu em 13 de março, seis dias após ser internada na UPA e poucos dias antes do início da vacinação para sua faixa etária. Deixou uma filha e uma neta.

— Ela era mãe de santo, muito conhecida, mas o enterro só teve quatro pessoas: eu, minha mãe, meu noivo e um filho de santo. Minha vó era tão vaidosa, queria ser enterrada com o manto da Iemanjá... Mas o caixão foi fechado. Infelizmente, foi só o cortejo de carros e deu. Nem o luto a gente vive direito — diz a neta, a recepcionista Bruna Silva de Moraes, 24 anos.  

A UPA Moacyr Scliar informou a GZH que, durante a permanência de Maria Helena na unidade, "foram utilizados todos os recursos disponíveis para seu tratamento. A partir de sua chegada, houve a solicitação de leito junto à Central de Leitos do Município, com atualização frequente do seu quadro clínico, em relação à gravidade e à necessidade de internação breve em UTI. Em função das comorbidades, teve um quadro de piora da função renal. Talvez fosse beneficiada pela hemodiálise".

Embora não seja possível assegurar que todos os 4.470 pacientes com coronavírus e SRAG deveriam estar em atendimento em um leito intensivo, a grande proporção de mortes fora de UTI neste primeiro trimestre a despeito da abertura de novas vagas aponta para uma relação entre a sobrecarga do sistema e a maior mortalidade fora de UTI, destaca o coordenador do Infogripe e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcelo Gomes.

— Estamos com uma oferta de leitos maior do que tivemos no ano passado, mas ainda assim estamos com 40% de óbitos fora de UTI, o que é compatível apenas com março e abril do ano passado, quando estávamos nos estruturando e 42% das mortes eram fora de UTI. No segundo pico, em novembro, quando estávamos melhor estruturados e a intensidade da pandemia foi semelhante ao pico do inverno, a porcentagem de óbitos fora de UTI não passou de 33% — diz Gomes.

O infectologista Alexandre Zavascki, médico no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), confirma a gravidade do alto número de mortes fora das UTIs

— Normalmente, pessoas que não vão para a UTI têm idade extremamente avançada ou muitas comorbidades. Isso é a exceção, não a regra. Por uma doença infecciosa, só não se leva para UTI os pacientes sem condição nenhuma de sobrevivência, e isso acontece usualmente por graves comorbidades, sequela por AVC, câncer terminal ou quem vive em estado vegetativo. Idosos com vida ativa vão para a UTI, tivemos pacientes com 90 anos indo para a UTI — reforça Zavascki.

Em termos brutos, o Rio Grande do Sul teve o terceiro maior número de óbitos do país fora de UTIs neste ano, como mostra o gráfico a seguir. Levando-se em conta o tamanho da população, ficou em quarto lugar, atrás de Rondônia, Amazonas e Roraima, todos na Região Norte.

Nas últimas duas semanas de março, o período mais letal da pandemia, o Rio Grande do Sul era o segundo Estado, em termos brutos e proporcionalmente, com mais mortes fora de leitos de terapia intensiva: mais de 1,6 mil vítimas. Quatro hospitais gaúchos ocupavam a lista das 10 instituições do Brasil com mais mortes fora de UTI.

A alta mortalidade fora das UTIs ocorre no mesmo período em que o Rio Grande do Sul permaneceu durante dias com a maior mortalidade a cada 100 mil habitantes do país. Consequentemente, subiu, em apenas duas semanas, da 14ª para a oitava maior mortalidade por coronavírus do Brasil, posição que ocupa ainda hoje.

A análise de GZH tem base nas estatísticas do Sivep-Gripe, sistema informatizado usado pelo Ministério da Saúde para acompanhar as internações em hospitais públicos e privados.

A reportagem considerou pacientes mortos que foram diagnosticados com coronavírus e somou com aqueles que receberam o diagnóstico de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) não especificada, um indicador seguido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para analisar a pandemia.

Os sintomas de SRAG não especificada analisados foram tosse e febre, desconforto na garganta, desconforto respiratório, dispneia, perda de olfato ou perda de paladar. Os dados foram selecionados com base na data de ocorrência da morte do paciente e seguiram a metodologia da Fiocruz.

Embora nem todos os casos de SRAG não especificada sejam diagnosticados como coronavírus, a Fiocruz entende que essa estatística deve ser levada em conta porque a maior parte dos pacientes com essa classificação recebe, dias depois, resultado positivo para covid-19. O Sars-Cov 2, dizem infectologistas, é o vírus respiratório que mais circula neste momento no Brasil.

Três especialistas entrevistados por GZH afirmam que as estatísticas mostram que o Rio Grande do Sul falhou em controlar a pandemia e oferecer o atendimento necessário à população.

Já o governo do Estado justifica que as mortes em hospitais ocorreram em espaços que foram transformados, no Rio Grande do Sul, em semi-UTIs, o que assegurou algum nível de atendimento intensivo.

O infectologista Alexandre Zavascki classifica as estatísticas como "trágicas" e as situa como reflexo dos erros do Estado na condução da pandemia.

— O modelo de distanciamento controlado foi feito para evitar que pessoas morram fora do hospital. Mas não evitou o colapso. O Rio Grande do Sul trabalhava com a ideia de que, enquanto desse para garantir assistência às pessoas que adoecessem, a vida deveria ser levada normalmente. O que aconteceu foi a falha desse sistema: o Estado falhou ao não adotar medidas para as pessoas não adoecerem e falhou em não dar hospitalização adequada às pessoas que precisaram — diz Zavascki, que chegou a fazer parte do Comitê Científico do Palácio Piratini, mas abandonou o grupo.

O coordenador do Infogripe e pesquisador da Fiocruz, Marcelo Gomes, ressalta que o Rio Grande do Sul está também entre os Estados com mais óbitos dentro das UTIs neste ano, o que reflete a alta mortalidade por coronavírus em solo gaúcho. Por isso, diz, abrir leito não é suficiente para controlar a pandemia.

— Quando olhamos todos os óbitos informados no sistema, tanto quem passou por UTI quanto quem não passou, o Rio Grande do Sul está entre os primeiros do ranking. Isso pode ser explicado pelo fato de que infelizmente é um Estado que está entre os que mais tiveram óbitos no país. A sobrecarga da rede hospitalar e a falta de leitos intensifica o número de mortes. O fundamental para evitar esse cenário é o controle da transmissão. Ter leito não é a solução. Isso minimiza o impacto, mas não resolve o problema — diz Gomes.

O médico Wagner Nedel, presidente da Sociedade de Terapia Intensiva do Rio Grande do Sul (Sotirgs), destaca que o atendimento fora das UTIs, apesar de fornecer cuidado ao paciente, não é igual a um tratamento em um leito intensivo.

— Quatro mil e quinhentos mortos é muito, demonstra que o sistema de saúde não correspondeu às necessidades da população. Essas pessoas deixaram de ter acesso, principalmente, a profissionais e estrutura hospitalar treinados para manejar esse tipo de paciente. Nas UPAs, há excelentes profissionais, mas eles não estão acostumados a dar manejo de emergência a doenças complexas. Os pacientes que precisam de hemodiálise não podem fazer isso em UPA, por exemplo. Não tem tomografia ou ecografia para diagnosticar complicações da covid em UPA — diz Nedel.

O presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Maneco Hassen, afirma que as estatísticas mostram que as políticas de combate à pandemia que o Rio Grande do Sul e municípios adotaram de maneira geral "não estão dando o resultado esperado". Ele diz que a superlotação nos municípios ocorreu em postos de saúde, UPAs e hospitais, o que "impediu que a sequência do atendimento natural pudesse ser realizada":

— Neste ano, o que mais sentimos falta foi de a vacinação ter começado antes. Segundo, municípios sentem falta de maior coordenação nacional. Terceiro, tivemos no início do ano pouca parceria do Estado para a fiscalização, em especial das aglomerações em festas de fim de ano e Carnaval. As forças de segurança estão participando mais agora, mas em janeiro e fevereiro isso não ocorria. E, claro, prefeitos sofreram muita pressão para adoção de medidas menos restritivas. Há uma ausência de politicas econômicas para prefeitos terem força.

A superlotação também também comprometeu o taxista Hélio José da Silva, de 65 anos. Morador de São Leopoldo e popular no bairro Rio Branco devido à profissão, ele evoluiu rapidamente de uma ausência de apetite para tosse e dificuldade de respirar. Foi levado até um posto de saúde e, de lá, para a UPA Scharlau.

Enquanto estava na UPA, Hélio trocava mensagens com o filho, o caminhoneiro Marcelo da Silva, 42 anos. Às 6h41min de 11 de março, enviou a seguinte mensagem pelo WhatsApp: "Pedi para a sua mãe me trazer duas camisas, uma bermuda e o meu ray-ban". Foi a última interação antes de ser entubado. Morreu em 14 de março deixando esposa, com quem estava casado há 45 anos, quatro filhos e cinco netos.

— Meu pai era uma pessoa muito alegre, estava sempre sorrindo. Me esperava chegar do trabalho todo dia para eu fazer uma batida e a gente caminhar no fim da tarde. Era meu parceiro de caminhadas. Chegar aqui no domingo e não ter ele para fazer um churrasco… Perdi um grande amigo — diz o filho Marcelo no quintal com a árvore de butiá cuidada pelo pai.

A prefeitura de São Leopoldo, responsável pela UPA Scharlau, enviou nota a GZH na qual diz que  Hélio José da Silva teve "intercorrências como arritmia cardíaca e infarto agudo do miocárdio, com alterações renais e evoluiu para ventilação mecânica em 11 de março, necessitando de leito de UTI".

O texto cita que ele "já havia sido cadastrado no sistema de regulação de leitos do governo do Estado no dia anterior e recadastrado diariamente, vindo a óbito em 14 de março, fazendo uso de ventilação mecânica na UPA. Neste período, foi registrada a maior demanda por leitos de UTI em todo o Rio Grande do Sul. Ele chegou a ser regulado para o Hospital Centenário, mas (a instituição) estava sem leito para recebê-lo".

O que diz o governo do Rio Grande do Sul

Eduardo Elsade, diretor do Departamento de Regulação Estadual da Secretaria de Estado da Saúde (SES) e responsável por organizar as UTIs no Rio Grande do Sul, reconhece o grande número de mortes entre fevereiro e março, mas destaca a expansão de 160% nos leitos intensivos públicos em território gaúcho no comparativo a antes da pandemia.

Elsade afirma que nenhum gaúcho ficou sem algum tipo de atendimento e pontua que as estatísticas de morte fora de UTI do Sivep-Gripe não levam em conta a decisão do governo de reforçar as emergências hospitalares para transformá-las em UTIs intermediárias.

— Hospitais do Rio Grande do Sul já tinham, nas emergências, estruturas semelhantes a uma UTI por causa da demanda de doenças respiratórias do inverno. Diferentemente de outros Estados, já tínhamos muitos respiradores. Em nosso plano de contingência, previmos usar todos os leitos de emergência para pacientes com coronavírus porque é mais fácil aproveitar essa estrutura do que criar uma do zero em um hospital de campanha. Distribuímos mais respiradores e reforçamos essas estruturas e a dos leitos clínicos. Ninguém ficou em atendimento precário, sem nenhum tratamento — afirma.

Elsade destaca que a cepa P1, originária em Manaus e mais transmissível, surpreendeu o governo ao elevar rapidamente o número de hospitalizações (mais de mil em apenas um mês) em um momento no qual a vacinação ainda era baixa, ao contrário de outros Estados, que reforçaram a estrutura de atendimento ao testemunhar o cenário gaúcho e, quando lidaram com o aumento, viviam estágio mais avançado da imunização.

— O sistema de saúde do Rio Grande do Sul não colapsou. Isso acontece quando tem óbitos sem atendimento em casa, posto de saúde ou ambulância. Isso não ocorreu aqui. O que aconteceu foi o estresse máximo do sistema de saúde. Ninguém morreu em situação precária, todos estavam em hospital, com uma equipe médica e atendimento — diz Elsade.

Por fim, o diretor do departamento responsável pela regulação de leitos no Estado defende o modelo de distanciamento controlado como uma ação "socialmente responsável" em um país no qual não há auxílio financeiro o suficiente para que a população isole-se em casa.

— O Rio Grande do Sul estabeleceu um modelo socialmente responsável de controle da pandemia. Ao mesmo tempo em que monitora com dados científicos, toma medidas sociais. O Estado tem que ter uma maneira controlada de fazer o combate. O governador é criticado por quem quer mais abertura e por quem quer menos. Isso demonstra que estamos no meio-termo e que o governo se portou de forma responsável. Esperamos que, na próxima onda, daqui a três meses, a vacinação esteja mais avançada — conclui Elsade.

 

Fonte: GZH

Foto: Félix Zucco / Agência RBS

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