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Alunos de séries mais avançadas tiveram pior desempenho em avaliação do governo do RS

  • Data: 21/Jul/2021

Indicativo é de que pais conseguiram auxiliar estudantes de etapas iniciais, mas não os das finais

 

Promovido pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) para começar a analisar as perdas de aprendizagem entre seus alunos durante a pandemia, o Avaliar É Tri apontou resultados preocupantes. O desempenho na prova foi pior quanto mais avançada era a etapa do aluno.

Enquanto os estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (do primeiro ao quinto ano) acertaram em média 70% das avaliações de Língua Portuguesa e Matemática, o percentual ficou em 67% entre os dos Anos Finais (do sexto ao nono ano) e em 56% entre os de Ensino Médio. Os desempenhos mais abaixo ficaram com os alunos do sétimo ano do Fundamental e do segundo ano do Médio. As provas verificaram os conhecimentos adquiridos pelos estudantes no ano anterior, quando a maioria deles estava uma série abaixo da atual.

Em Língua Portuguesa, o percentual de acertos foi mais estável ao longo das etapas. Entre o segundo e o quarto ano do Ensino Fundamental, a média foi de cerca de 80% respostas corretas e caiu para em torno de 70% no restante das etapas, exceto no sétimo ano, série na qual o índice de acertos foi de 59,6%.

Já em Matemática, o desempenho vai caindo conforme as séries vão passando. Ainda que a média entre o segundo e o quarto ano do Ensino Fundamental tenha ficado em 83%, acima da registrada em Língua Portuguesa, o índice de acertos decresce gradualmente e fica com uma média de 60% de respostas certas nas outras séries. O percentual mais baixo está no segundo ano do Ensino Médio, que acertou 50,3% respostas, mas todas as séries do Médio apresentam desempenho abaixo dos 60%.

A avaliação também separou os estudantes por categoria de desempenho – muito baixo, para até 25% de acertos; baixo, para 26% a 50% de acertos; médio, para 51% a 75% de acertos; e alto, para 76% de acertos ou mais.

Em Língua Portuguesa, o terceiro ano do Médio registrou o maior percentual de alunos com desempenho muito baixo (9,9%), enquanto o sétimo ano foi o campeão em número de estudantes com desempenho baixo (27,4%) ou médio (38,9%) e o terceiro ano do Fundamental foi o com mais participantes com desempenho alto (71,1%).

Em Matemática, o segundo ano do Ensino Médio ficou com o maior número de alunos com desempenho muito baixo (24,2%) e o primeiro ano do Médio teve o maior percentual de estudantes com desempenho baixo (34,7%). Já o sexto ano foi o campeão de participantes na categoria média (33,3%) e o terceiro ano do Fundamental liderou em quantidade de alunos com desempenho alto (77,2%).

Pela análise das especialistas do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), que elaboraram a prova, no que se refere à Língua Portuguesa, os estudantes se saíram melhor em questões que envolviam textos com aproximações com o cotidiano, linguagem mais simples e oferta de apoio visual, como tirinhas, e se saíram pior quando eram exigidas habilidades para tirar conclusões, identificar pontos e vista e distinguir um fato de uma opinião. Em Matemática, o desempenho foi melhor em itens que envolviam números naturais, com apoio de figuras e situações ligadas ao cotidiano, mas foi pior quando era exigido pensamento algébrico, geométrico e números inteiros.

Jaqueline Moll, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretora de Currículos e Educação Integral da Secretaria de Educação Básica no Ministério da Educação, acredita que o Avaliar É Tri mostrou o que todos já sabiam: o ensino público tem muitos problemas.

— Esses dados genéricos ajudam muito pouco as escolas a se verem. O que é “Avaliar É Tri”? Tri é dar formação para os professores, garantir o respeito nas escolas, dar capacidade técnica para que as escolas mostrem o que têm e saber como avançar. Ninguém planta cactos e colhe rosas — critica a docente.

Para a educadora, um dos grandes problemas é a negação, por parte dos governos, das experiências anteriores que já deram certo. Além disso, afirma que a falta de investimento em educação demonstra que a educação pública não faz parte dos projetos de desenvolvimento dos governos.

Participação de 70% dos alunos preocupa a Seduc

O percentual médio de acertos coincidiu com o percentual médio de participação dos estudantes em cada série – os mais novos participaram mais da prova e acertaram um número maior de questões, ao passo que os mais velhos estiveram mais ausentes e acertaram menos. Cerca de 70% dos alunos realizaram a prova, que podia ser feita de forma digital ou impressa, em casa ou na escola. O segundo ano do Ensino Médio teve o menor comparecimento: 54,1% dos estudantes dessa série responderam as questões de Língua Portuguesa e 49,9% preencheram as de Matemática.

Segundo a secretária estadual de Educação, Raquel Teixeira, os objetivos do Avaliar É Tri eram mobilizar a rede para o retorno à escola, saber como os alunos estão em termos de aprendizagem e identificar os sinais de abandono escolar, por meio do percentual de estudantes que participaram da prova. Nesse sentido, ela diz estar satisfeita com o resultado.

— Buscamos trazer questões com habilidades essenciais, que são marcos do conhecimento cognitivo-educacional, e a prova mostrou esses marcos, o que nos permite montar um plano de recuperação e aceleração de aprendizagem, inclusive com a formação dos professores, para apoiá-los nesse processo. Então, estou muito satisfeita com o resultado — destaca a secretária.

O comparecimento de cerca de 70% dos alunos, porém, traz um alerta para a Seduc. Teixeira aponta que presença menos significativa dos estudantes do Ensino Médio é ainda mais preocupante, uma vez que é nessa etapa que se está preparando o adolescente para o mundo do trabalho.

— Aqui no Rio Grande do Sul, quem hoje está no terceiro ano cursou o primeiro ano em 2019, quando houve dois meses de greve, o segundo ano totalmente remoto e o terceiro em condições também muito precárias. Isso é muito preocupante, no século XXI, quando o conhecimento é o que alavanca a economia — pontua a secretária.

Para evitar que os alunos saiam da escola sem ter desenvolvido as habilidades necessárias, a Seduc elabora, hoje, o modelo de um quarto ano do Ensino Médio. Ele deve começar em janeiro e será opcional. O currículo será diferente do que se oferece no restante das séries – terá um foco especial em Inglês, Língua Portuguesa e Matemática e incluirá disciplinas como Projeto de Vida e Projeto de Vida para o Mundo do Trabalho.

O Avaliar É Tri será complementar à avaliação amostral, prevista para o final de agosto, na qual serão selecionados alunos de diferentes séries, idades, regiões do Estado e condições socioeconômicas, de forma a contemplar todos os perfis existentes na rede estadual. Ao contrário da avaliação diagnóstica, essa prova será feita obrigatoriamente de modo presencial.

Desempenho mais baixo em etapas que exigem mais mudanças

O desempenho baixo especialmente entre estudantes do sétimo ano do Fundamental e do segundo ano do Médio indicam, para a secretária Raquel Teixeira, uma dificuldade maior em alunos que já estavam em etapas que envolvem mais transformações.

— Quem está no sétimo ano hoje, fez o sexto ano em 2020, justamente quando se começa a trabalhar com um professor por disciplina, o que às vezes implica até em mudança de escola. Quem está no segundo ano do Ensino Médio, fez o primeiro ano em 2020, que também traz mudanças de escola. Esses meninos passaram por essa transformação da forma mais adversa possível, sem conhecer seus colegas e professores — observa a secretária.

Segundo o professor da Faculdade de Educação da UFRGS Fernando Becker, ainda que muita gente diga que é possível recuperar a aprendizagem perdida depois, os processos exigem tempo e continuidade, em função das sequências das aprendizagens. Na Matemática, ele afirma que essa sequência é ainda mais importante.

— A Matemática é como um edifício: se você não constrói bons fundamentos, não vai poder construir um edifício em cima. Cada andar é necessário para construir o andar seguinte — resume o docente.

O professor ressalta que a estrutura lógica é construída no indivíduo desde seu nascimento e, aos sete ou oito anos, a criança passa a entender a noção do que é um número, o que é o tal fundamento para construir o “edifício” da Matemática. Depois, vai se trabalhando nas formas que os números podem ter. Pelo que o docente observou dos resultados do Avaliar É Tri, na medida em que vão aparecendo esses conhecimentos mais formais, como no sexto ano e no Ensino Médio, os alunos não se saem tão bem – o que está relacionado, inclusive, com a evasão escolar.

— Se a capacidade lógica não continua a ser construída em grau suficiente para compreender conteúdos matemáticos mais complexos, como a álgebra, o aluno que está na escola começa a não saber por que está lá. Como lhe falta uma compreensão maior, ele simplesmente acaba abandonando, ou indo de reprovação em reprovação — relata Becker.

Para o professor, as dificuldades de proporcionar um conhecimento mais complexo para os estudantes já existiam, mas se acirraram com a pandemia. Essa capacidade formal se projeta na aprendizagem também da literatura: ao estruturar uma redação ou avaliar o que se escreveu, segundo o docente, usa-se a mesma estrutura cognitiva desenvolvida na Matemática.

 

Fonte: GZH

Foto: Divulgação

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