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Escolas do RS adotam medidas para regular o uso de celular nas salas de aula

  • Data: 28/Fev/2024

Recomendação é para que dispositivos eletrônicos sejam utilizados pelos alunos com orientação

 

Com a volta às aulas, escolas gaúchas têm criado políticas para o uso dos celulares no ambiente escolar, de forma a regular a utilização dos dispositivos. Nos últimos meses, as discussões sobre o uso de celulares nas escolas cresceram, com a multiplicação de aplicativos e ferramentas digitais à disposição dos alunos, especialmente após a pandemia de covid-19. 

A cidade do Rio de Janeiro (RJ), por exemplo, anunciou a proibição do uso de celulares nas escolas da rede municipal. Após consulta pública, foi definido em decreto que os estudantes não poderão usar o dispositivo nem mesmo fora da sala de aula, no recreio e nos intervalos entre as aulas. Cerca de 83% dos entrevistados foram favoráveis à medida. 

O enrijecimento das restrições foi recomendado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Publicado no ano passado, o Relatório Global de Monitoramento da Educação 2023 elenca estudos que evidenciam prejuízos no desempenho dos estudantes por conta do uso excessivo das tecnologias. 

Secretaria Educação do RS (Seduc) informa que, no Rio Grande do Sul, “não há uma proibição do uso, mas, sim, a restrição do uso de algumas funcionalidades da internet a partir do acesso do aluno pelo aplicativo Escola RS”, app voltado para estudantes da rede estadual. 

Conforme a pasta, que se manifestou por nota, ferramentas como chromebooks e celulares para acesso às plataformas de leitura e do Google Classroom fazem parte da estrutura de apoio pedagógico. A secretaria acrescenta que o uso dos equipamentos “é realizado com acompanhamento e orientação dos professores, que indicam as atividades dos componentes curriculares que serão desenvolvidas ao longo do ano letivo”. 

Em Porto Alegre, desde 2011, existe a lei nº 11.067, que determina a proibição do uso de aparelhos de celular durante as aulas nas escolas da rede municipal. Segundo a Secretaria Municipal de Educação (Smed), até o momento, não há intenção de modificar a regra. 

Mudanças que vão além da sala de aula 

No colégio Dom Feliciano, em Gravataí, o ano de 2024 começou de um jeito diferente – a partir de 21 de fevereiro, quando as aulas foram retomadas na escola, os alunos tiveram que deixar o celular de lado. A instituição implementou a Política de Uso dos Celulares no Ambiente Escolar, que busca regular o uso dos dispositivos na instituição. 

Para os pequenos, da Educação Infantil até os anos iniciais do Ensino Fundamental, a regra é não levar o celular para a escola. Caso os pais achem necessário, as crianças podem levar o dispositivo, mas a recomendação é que fique guardado e desligado, mesmo nos intervalos. 

Já no caso dos estudantes dos anos finais do Fundamental, do Ensino Médio e dos cursos profissionalizantes, o uso do celular é permitido para fins pedagógicos, quando autorizado pelos professores. Caso contrário, o dispositivo deve ficar guardado em uma caixa, podendo ser acessado nos momentos de intervalo. Todas as salas de aula ganharam espaços que servem especialmente para os alunos depositarem os smartphones. 

— Tentamos conscientizá-los em sala de aula, ensinar os alunos para saberem os momentos adequados de usar o celular. Mas não deu certo, a maioria deles continuou usando o celular de forma excessiva. Então, resolvemos criar a política, para também nos responsabilizarmos por este processo — explica Jane Segaspini, diretora da escola, que integra a rede ICM de educação. 

Depois de uma semana de aulas com as novas medidas, a instituição já sentiu impactos positivos. Mesmo no recreio, alguns estudantes costumam deixar o smartphone guardado na sala de aula, priorizando as interações com os colegas, segundo a diretora. 

— No começo era difícil deixar o celular na caixa, porque se tornou um hábito ficar olhando a tela, eu ficava conferindo a hora. O celular é como se fosse uma parte do corpo. Mas, aí, temos que pensar nos nossos objetivos. O que é mais importante, priorizar os estudos ou as redes sociais? É difícil, mas acho que a longo prazo vai ser algo benéfico pra gente — relata Letícia Montim Orlandi, 17 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio. 

A experiência foi parecida para Eduarda de Oliveira Braun, 17, colega de Letícia. Ela conta que levou alguns dias para se acostumar com a mudança, e que os colegas reclamaram bastante no começo. Mas, aos poucos, deixaram de lado a vontade de olhar o celular a todo momento. 

Riscos do uso excessivo

A adesão dos estudantes foi uma surpresa para a escola e para os pais. Para Ana Cristina Orlandi, mãe de Letícia e presidente do Conselho de Pais, a iniciativa foi muito positiva. 

— O celular é uma ferramenta que todo mundo usa hoje em dia, não adianta proibir totalmente. Mas também não adianta se for algo para atrapalhar a aula. Muitas vezes, acontecia de o professor dar uma explicação e só metade da turma prestar atenção. A escola percebeu que os celulares estavam atrapalhando, e concluímos que seria uma boa medida. 

Atualmente, a escola conta com cerca de 2 mil alunos. Antes de implementar a política, o colégio Dom Feliciano realizou um levantamento com os pais, alunos e funcionários para entender se a comunidade escolar era favorável às mudanças. A instituição também formou um grupo de trabalho para analisar os resultados da pesquisa e estudar sobre o tema, observando exemplos de outros países que adotaram medidas semelhantes.  

Segundo a presidente do Instituto Singularidades, Cláudia Costin, é fundamental envolver toda a comunidade escolar neste debate, incluindo as famílias. Um dos papeis que a escola pode desempenhar, nesse sentido, é conscientizar os pais sobre os riscos do uso excessivo dos dispositivos eletrônicos na infância, para além dos já conhecidos impactos cognitivos. 

— Precisamos dar orientações para as famílias, uma vez que sabemos desses riscos, desses prejuízos tão grandes, que já foram evidenciados por diversos estudos. Usar o celular de modo excessivo afasta as crianças da socialização, que é um elemento tão importante da escola. Elas também precisam aprender a navegar com segurança na internet, isso precisa ser ensinado. É muito importante que se promova a educação midiática. E, ao mesmo tempo, temos que priorizar períodos de atividades longe das telas — diz a pesquisadora. 

Conscientização 

O colégio Monteiro Lobato, em Porto Alegre, tem promovido ações para conscientizar pais e alunos sobre os malefícios do uso das telas. No ano passado, foi realizado o projeto Diálogos com Sentido, com palestras de especialistas e participação das famílias dos estudantes. Na ocasião, foram abordados assuntos como os impactos psicológicos do abuso das redes sociais e das telas. Neste ano, a escola pretende debater com os estudantes sobre a necessidade de uma restrição do uso dos smartphones, segundo a diretora educacional, Ana Lobato. 

— Temos vários recursos para fins pedagógicos na escola. A tecnologia ajuda muito nos processos de aprendizagem, mas o celular traz essas distrações, com coisas que não têm a ver com a escola. O smartphone se tornou uma ferramenta importante, mas também vem atrapalhando a rotina dos alunos. Independentemente de virem medidas mais restritivas para o Estado, acreditamos que precisamos mudar — afirma. 

No colégio Mauá, em Santa Cruz do Sul, foi lançada normativa que amplia as restrições de uso de aparelhos celulares. A escola já proibia o uso dos celulares em sala de aula até o 4º ano do Ensino Fundamental. Agora, a regra vale para todas as turmas da Educação Infantil até o 5º ano, e não só em sala de aula. O documento determina que os alunos não devem utilizar os dispositivos nem mesmo nos intervalos, corredores e demais espaços da escola. 

Conforme o diretor, o professor Nestor Raschen, a instituição realizou um levantamento no ano passado, constatando que 50% dos alunos de 5º ano faziam uso de telas por mais de três horas por dia.  

— Isto nos preocupou. Daí a razão de cuidarmos da saúde de nossos alunos, com medidas que possam ajudá-los nesta fase tão importante de suas vidas. O retorno que tivemos das famílias foi muito positivo — relata o diretor. A escola também vem promovendo palestras para orientar os pais sobre os riscos do uso demasiado das telas.  

 

Fonte: GZH

Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS

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